Se perguntarmos de onde vem o grão-de-bico com que é feito o húmus ou o feijão que encontramos na lata do supermercado, a resposta revela uma realidade desconfortável: Portugal produz uma fração quase insignificante das leguminosas que consome.
“Proteína de origem vegetal” é uma expressão que tem vindo a surgir com cada vez mais frequência no nosso dia-a-dia. Seja por razões de dieta ou de pegada ambiental, o facto é que o tema está na ordem do dia e a tendência é para que assim se mantenha.
A nível internacional, a Organização das Nações Unidas multiplica iniciativas para fomentar a produção e o consumo de proteínas vegetais com base em leguminosas, apontando-as como um pilar essencial para o futuro da alimentação e do planeta. No Reino Unido, a campanha “Bang in Some Beans”, apoiada por chefs e retalhistas, pretende duplicar o consumo até 2028. Na Austrália, o livro Level Up With Legumes propõe refeições fáceis de preparar. Nos EUA, as orientações alimentares para 2025-2030 também destacam o seu elevado valor nutricional.
Mais ainda, e no nosso caso concreto, se perguntarmos de onde vem o grão-de-bico com que é feito o húmus ou o feijão que encontramos na lata do supermercado, a resposta revela uma realidade desconfortável: Portugal produz uma fração quase insignificante das leguminosas que consome.
Vivemos, assim, no meio de uma contradição curiosa: nós, os consumidores, adoramos falar de dietas saudáveis e de sustentabilidade, mas o país continua dramaticamente dependente do exterior para encher o prato com alimentos que fazem parte da nossa identidade e da nossa história agrícola há séculos.
Os dados recentes da Balança Alimentar Portuguesa do INE traçam o retrato exato desta contradição. No quinquénio recente, a disponibilidade diária de leguminosas secas no nosso país situou-se entre os 12,5 gramas e os 13,2 gramas por habitante (o equivalente a cerca de 4,6 a 4,8 quilos por pessoa por ano). Contudo, a ligeira subida registada foi impulsionada quase exclusivamente pelas importações, e não pela produção nacional.
O feijão seco representa cerca de dois terços das disponibilidades, seguido pelo grão-de-bico. Ainda assim, a disponibilidade média diária permanece manifestamente abaixo das recomendações da Roda dos Alimentos.
Não nos falta conhecimento agronómico ou variedades adaptadas. No Polo de Elvas do INIAV, anos de melhoramento genético permitiram desenvolver e manter variedades de grão-de-bico, tremoço, ervilha, fava, feijão, lentilha e chícharo perfeitamente adaptadas ao clima mediterrânico, com elevado potencial produtivo e qualidade.
A ironia é que várias destas variedades são procuradas e cultivadas noutros países, enquanto Portugal tarda em transformar esse património genético numa fileira forte e estruturada.
Também não falta vontade de mudar. Do lado dos agentes do setor agroalimentar, a determinação em inverter este caminho e pôr a fileira a funcionar é enorme.
O Centro de Competências CEREALTECH já desenhou um Roteiro para o Desenvolvimento das Culturas Proteaginosas. As prioridades são claras: atualizar o itinerário técnico, selecionar variedades adaptadas e aproximar agricultores e indústria, garantindo escala e homogeneidade ao produto.
Além disso, a constituição do Grupo Colaborativo da Estratégia Nacional pela Proteína Vegetal, reunindo dezenas de entidades de investigação, academia, produção, indústria, retalho, ambiente e saúde, demonstra que o ecossistema nacional está pronto e alinhado para impulsionar a proteína vegetal.
Por último, ao nível das políticas públicas, vive-se um período de incentivo à produção de proteaginosas.
Se temos conhecimento, património e vontade, incluindo política, porque é tão difícil aumentar a área semeada de leguminosas?
Porque o agricultor enfrenta obstáculos práticos e concretos. Por um lado, as proteaginosas receberam, histórica e mundialmente, menos investimento em investigação do que outras culturas, o que resultou em ganhos de produtividade mais modestos; por outro, há um efetivo risco climático: a produção é maioritariamente de sequeiro. Num cenário de secas prolongadas e chuva irregular, o rendimento torna-se bastante incerto; e, finalmente, a rentabilidade é difícil: os preços são definidos no mercado internacional e com custos de produção crescentes e sem infraestruturas locais adequadas de limpeza, calibragem e secagem, as contas nem sempre compensam.
Vencer estes obstáculos vale a pena quando ponderamos os enormes benefícios ecológicos e nutricionais que as leguminosas oferecem ao nosso território e à nossa saúde.
As proteaginosas fixam azoto atmosférico através de simbioses naturais, enriquecendo a fertilidade dos solos e reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos nas rotações agrícolas.
Ao mesmo tempo, as leguminosas secas integram a Roda dos Alimentos e a Dieta Mediterrânica. Fornecem proteína de qualidade, fibra, minerais e vitaminas, aliando um perfil nutricional excelente a conveniência e preços acessíveis.
Portugal continua a apresentar uma balança comercial agroalimentar fortemente deficitária e importa milhares de toneladas de feijão e grão. No entanto, dispõe de condições de solo e clima, conhecimento técnico e capacidade para produzir mais, cumprindo as exigentes normas europeias de segurança alimentar e qualidade.
Cada escolha que fazemos no supermercado produz efeitos em toda a cadeia de valor. Se procurarmos apenas o preço mais baixo sem valorizar a origem, o retalho não incentivará a indústria a comprar em Portugal e o agricultor terá cada vez menos razões para semear.
Comer mais leguminosas e valorizar a produção nacional é uma forma concreta e acessível de apoiar o país que queremos construir.
Comecemos então a comê-las para que comecemos, também, a produzi-las. Com a segurança e a qualidade tão amplamente reconhecidas aos produtos portugueses.
Fonte: sapo.pt