29 de Junho de 2026
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Contaminantes em velocidade de cruzeiro
2026-06-29
Qualfood

A civilização contemporânea assemelha-se cada vez mais a um grande navio em viagem. Grande, sofisticado, veloz, cheio de tecnologia e aparentemente seguro. No entanto, a cada travessia, enquanto aumenta potência nos motores, o desgaste do casco deixa entrar lentamente a água pelos porões. No convés discutem-se economia, inteligência artificial, energia, rotas comerciais, defesa e disputas geopolíticas. Os motores trabalham sem descanso e a travessia continua por mares largos e estreitos. Entretanto, o casco já não parece ter a solidez de outros tempos.

Nos Estados Unidos, o líder americano de estilo político difícil de ignorar e até de acompanhar, ameaça, tranquiliza e volta a ameaçar. E, o mundo inteiro navega ao sabor dessas oscilações. Basta olhar para as ameaças de tarifas sobre produtos agroalimentares europeus ou para os recuos em políticas climáticas. A Europa observa, reage devagar e tenta encontrar equilíbrio entre prudência e falta de liderança. Entre exigências ambientais cada vez mais rigorosas e a entrada de produtos provenientes de mercados sujeitos a enquadramentos regulamentares distintos, acumulam-se constrangimentos e divergências por exemplo relativamente a OGM, pesticidas, novos ingredientes ou novos alimentos e suplementos alimentares. Por exemplo:a carne proveniente de mercados longínquos continua a suscitar preocupações relacionadas com rastreabilidade, utilização de hormonas de crescimento ou determinados tratamentos tecnológicos; os suplementos alimentares, sempre a suscitarem desconforto no que diz respeito à sua segurança; a soja, reconhecida como excelente fonte proteica, sustenta uma forte dependência externa. A Europa promove políticas ambientais exigentes, mas continua dependente da importação de alimentos produzidos a milhares de quilómetros de distância. E, no entanto, o navio segue.

Continuamos a viajem, a consumir e a produzir. As cadeias logísticas funcionam, os supermercados mantêm-se abastecidos e a tecnologia dá-nos uma ilusão permanente de controlo. A contaminação deixou de ser apenas um acidente isolado para integrar discretamente o quotidiano das sociedades modernas. Basta olhar para o noticiário para perceber que há infiltrações em todas as áreas da sociedade: na política, na finança e até no futebol. Lembremo-nos que os navios não afundam por causa de uma única vaga. Afundam quando pequenas infiltrações deixam de ser vistas como problema.

Também no ambiente os sinais se acumulam silenciosamente. Oceanos sujeitos a pressões crescentes, solos agrícolas exaustos, florestas vulneráveis e recursos naturais consumidos a um ritmo difícil de sustentar. Em certas regiões travam-se guerras onde a dimensão ecológica raramente passa de nota de rodapé. Continua-se a investir recursos na remediação ambiental, descontaminação de solos, tratamento de águas e monitorização alimentar. Mas persistimos em modelos de produção e consumo que alimentam o problema na origem. Como no navio, onde parte da tripulação tenta escoar a água enquanto outra continua a abrir novas fissuras no casco.

A indústria alimentar encontra-se inevitavelmente no centro desta viagem. Falar de contaminação é falar de segurança alimentar, confiança do consumidor e saúde pública. Embora alguns atributos dos alimentos sejam visíveis, muitos daqueles que o consumidor procura e valoriza não o são. O desafio deixou de ser apenas produzir mais; passou a ser garantir segurança num ambiente cada vez mais pressionado. Talvez o maior risco do nosso tempo não seja apenas a contaminação, mas a extraordinária capacidade coletiva de nos habituarmos a ela.

O Homem é um animal de hábitos, como nos ensinou Aristóteles na sua teoria sobre o comportamento e a normalidade. Os navios não afundam quando a água entra, mas quando a tripulação aceita a água nos porões como parte normal da viagem. Os consumidores dependem cada vez mais de indicadores de confiança para verificar a qualidade e segurança dos alimentos. Importa, por isso, manter confiança na ciência, na inteligência coletiva e na capacidade humana de corrigir trajetórias. Afinal, os navios não se constroem para permanecer no porto. Constroem-se para enfrentar o mar, mesmo quando o horizonte se torna menos nítido.

Fonte: TecnoAlimentar

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