As alterações climáticas estão a transformar profundamente a produção mundial de café, tornando a cadeia de abastecimento mais frágil e pressionando os preços ao longo de todo o sector, segundo uma análise da GlobalData.
O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a maior frequência de fenómenos meteorológicos extremos estão a afetar as principais regiões produtoras, reduzindo a previsibilidade das colheitas e a disponibilidade de matéria-prima. O impacto faz-se sentir desde os agricultores até aos fabricantes e consumidores, com preços mais elevados e menor consistência do produto.
A variedade arábica, que representa mais de metade da produção global e domina os segmentos premium, é particularmente vulnerável. Esta casta desenvolve-se melhor em intervalos de temperatura específicos e, com o aquecimento global, muitas zonas tradicionais estão a tornar-se menos adequadas ao seu cultivo.
As projeções apontam para um cenário ainda mais desafiante. O Rabobank estima que cerca de 20% das áreas atuais de cultivo de arábica possam tornar-se inviáveis até 2050, forçando uma redistribuição geográfica da produção e aumentando o risco de ruturas no abastecimento.
Além da quantidade, a qualidade também está em risco. Temperaturas mais elevadas aceleram a maturação dos grãos, reduzindo a complexidade aromática, enquanto chuvas intensas durante a colheita aumentam a probabilidade de defeitos. Como resultado, fabricantes poderão ser obrigados a ajustar misturas, recorrer mais à variedade robusta – mais resistente ao calor – ou reformular produtos.
O impacto já chega ao consumidor final. A FAO registou uma subida de quase 40% nos preços do café em 2024, impulsionada por quebras de produção associadas ao clima adverso. Para além do preço, os consumidores enfrentam também menor diversidade de oferta e possíveis alterações no sabor habitual.
Apesar dos desafios, existem estratégias de adaptação em curso, como sistemas agroflorestais, desenvolvimento de novas variedades mais resistentes e maior diversificação de origens por parte da indústria. No entanto, especialistas alertam que o sucesso destas medidas dependerá da rapidez do investimento e do apoio aos pequenos produtores, responsáveis por grande parte da produção mundial.
A conclusão é clara: o futuro do café dependerá não só da evolução do clima, mas também da capacidade de resposta de toda a cadeia de valor para garantir oferta, qualidade e estabilidade num mercado cada vez mais pressionado.
Fonte: Grande Consumo