26 de Maio de 2026
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Há uma relação entre os solos agrícolas, o selénio e as doenças da tiroide
2026-05-26
Qualfood

Segundo a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), as doenças da tiroide podem afetar até um milhão de portugueses, mas cerca de 600 mil não estão diagnosticados, porque os sintomas são, muitas vezes, desvalorizados e confundidos com situações do dia a dia. Falamos de doenças como o hipotiroidismo e o hipertiroidismo, mas também de tiroidite de Hashimoto. “Há uma larga percentagem da população que tem tiroidite de Hashimoto, mas muitas delas nem sabem, porque esta doença não causa necessariamente sintomas e tem um grande espectro de manifestações clínicas”, explica Ana Wessling, médica endocrinologista.

“Ter uma tiroidite de Hashimoto, autoimune ou crónica, significa que o sistema imunitário produz anticorpos que causam uma inflamação da tiroide. Há pessoas que, apesar disso, continuam a ter um bom equilíbrio hormonal portanto, têm poucos sintomas. Outras têm esses anticorpos e a tiroide não consegue funcionar tão bem – têm défice hormonal –, pelo que têm muito mais sintomas”, descreve a médica.

Nestes casos, o selénio ajuda a diminuir os níveis dos tais anticorpos, os anti-TPO, e a inflamação da tiroide. No entanto, “ainda não se conseguiu encontrar nenhum efeito na melhoria hormonal. Para quem precisa de tomar medicação ou tem hipotiroidismo, o selénio melhora os anticorpos e o aspeto da tiroide, mas ainda não melhora muito bem a função. Não substitui o tratamento”, esclarece Ana Wessling, referindo que o mineral ajuda a atrasar a progressão da doença de Graves, por exemplo.

“Recentemente, foi feito um estudo em que se percebeu que as mulheres grávidas com tiroidite que tomam selénio no segundo e terceiro trimestres têm maior estabilidade imunológica, menor taxa de tiroidite pós-parto e menor agravamento da função tiroideia. Aqui parece ter um papel mais preventivo”, acrescenta.

A dose diária recomendada de selénio é 55 microgramas para adultos e adolescentes e entre 20 a 40 microgramas para crianças. O micronutriente está presente na natureza, no solo e nos alimentos, mas o seu teor é variável, já que depende dos níveis de selénio do solo onde o alimento foi cultivado. Atum em óleo, salmão, bacalhau, carne de porco ou vaca, ostras, assim como cereais, frutos secos oleaginosos e laticínios são fontes de selénio. “As castanhas do Brasil são um alimento muito rico – normalmente, duas a três castanhas contêm a quantidade recomendada”, menciona a endocrinologista.

Com base na sua experiência clínica, Ana Wessling diz que “há hoje em dia algum défice” na população, mas não vê “défices muito graves”, antes “níveis próximos do limite inferior de referência”. Ainda assim, reconhece, estes “podem não ser níveis ideais ou ótimos”. As razões, aponta a médica, podem ser “problemas de digestão ou absorção”, que alteram a capacidade de absorver selénio, e a pobreza do solo cultivado.

Tudo começa nos solos agrícolas

“Os solos da agricultura intensiva estão muito pobres e nem sempre se usam adubos com selénio. Acabamos por ter trigo e cereais a crescer em campos com pouco selénio e, algumas vezes, esses cereais servem de alimento para os animais, podendo resultar num défice na cadeia alimentar”, explica.

Este foi, aliás, o tema de estudo da tese de doutoramento, publicada em 2014, de Catarina Galinha, agora médica interna de Radiologia. “O objetivo do estudo [“Selenium Supplementation of Cereal Crops – Different Approaches to Enhancing Selenium Levels in Wheat Cultivars”] foi perceber como podíamos melhorar a ingestão de selénio de uma forma mais natural, sem ser através de suplementação. Como sabemos, os portugueses gostam de pão, por isso, a ideia era entender se era possível aumentarmos o teor de selénio na farinha de trigo”, explica Catarina Galinha.

“Fomos a várias regiões do país, a Trás-os-Montes, Beira e Alentejo, onde apanhámos espigas de trigo e solo. Verificámos que os solos portugueses são pobres em selénio e, consequentemente, o trigo também. De acordo com algumas referências bibliográficas já um bocadinho antigas – na altura era o que estava disponível – para se considerar que um solo fosse adequado para fazer crescer plantas com um teor normal de selénio, esse solo teria de ter 600 ppb (partes por bilião), ou microgramas, de selénio. Na altura, o solo menos pobre que analisámos tinha 200”, conta a especialista.

Contudo, nem sempre o solo que tem o valor mais alto de selénio é aquele que produz o melhor trigo, porque as características de cada solo, tal como o seu tipo ou nível de pH, influenciam a forma como o mineral se encontra na terra. “O estudo confirmou que o trigo capta melhor o selénio na forma de selenato do que de selenito, por exemplo. Não interessa só o teor de selénio no solo, interessa a forma biodisponível do selénio”, afirma Catarina Galinha, assegurando que as conclusões do estudo foram positivas e que a suplementação do solo com selénio levou a um aumento no teor de selénio presente no trigo já em farinha.

Em 1984, para resolver o mesmo problema, o governo da Finlândia aprovou uma lei que impôs o enriquecimento obrigatório de todos os fertilizantes com selénio de forma a garantir uma ingestão adequada do mineral pela população. Em Portugal não existe nenhuma medida nacional neste sentido, sendo que há quem recorra à suplementação.

“Por um lado, o selénio é um componente essencial de enzimas que interferem na estabilização das hormonas da tiroide e, por outro, atua como antioxidante”, ilustra Ana Wessling, notando que “há pessoas que se sentem melhor quando tomam selénio, mesmo que os níveis não estejam muito graves”. Mas a médica defende que, em casos de suplementação, é sempre importante “não dar em excesso” ou “coisas que não são necessárias”.

Fonte: Expresso

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