O Congresso Mundial do Azeite (OOWC), realizado nos dias 2 e 3 de julho no Centro Cultural de Belém, concluiu as suas sessões com um diagnóstico claro e conclusões que vão além do habitual debate técnico: o azeite é um ativo estratégico cujo futuro depende de quatro frentes — clima, tecnologia, qualidade e comunicação — que o setor já não pode continuar a abordar separadamente.
A primeira e mais urgente é o clima. A região mediterrânica está a aquecer ao dobro da média global, e as projeções apontam para uma redução de até 44% nos rendimentos dos olivais no sul de Espanha, a par de um aumento das pragas, alterações na floração e episódios cada vez mais precoces de calor extremo. A resposta passa pela preservação da diversidade genética — o projeto GEN4OLIVE caracterizou mais de 600 variedades e depositou material no Depósito Global de Sementes de Svalbard —, pelo desenvolvimento de variedades resistentes e pela melhoria da gestão da água e do solo. A sobrevivência das explorações agrícolas de pequena e média dimensão, que sustentam a paisagem mediterrânica, continua a ser a preocupação mais urgente.
Tecnologia que ainda não chega a todos
Neste contexto, a digitalização surge como um fator-chave: a IA, os drones e os sensores permitem poupanças comprovadas de 68 % na água de rega e de 35 % nos produtos fitofarmacêuticos, enquanto o lagar do futuro será mais conectado e preditivo. No entanto, a adoção da tecnologia continua a ser o verdadeiro obstáculo. As ferramentas avançadas estão a chegar tarde aos pequenos produtores, precisamente quando a colheita, por si só, representa quase metade dos custos de produção na olivicultura tradicional. Sem formação e novos modelos de negócio, a tecnologia, por si só, não é suficiente.
Fraude, qualidade e os 40 anos do painel de degustação
Produzir mais e melhor não faz sentido se o produto que chega ao mercado não for o que afirma ser. O azeite continua a ser um dos alimentos mais expostos à fraude: as ameaças mais difíceis de combater são a desodorização suave — que remove defeitos sem deixar vestígios analíticos evidentes — e as misturas concebidas para contornar os controlos. O Congresso defendeu a harmonização entre o Codex Alimentarius e o COI, a utilização de esteróis como «impressão digital» de autenticidade e a ressonância magnética nuclear (RMN) como técnica de verificação emergente. As árvores de decisão do COI permitem também que os azeites autênticos que se situam fora dos limites de pureza devido a variações naturais sejam comercializados sem comprometer a deteção de fraudes. Neste contexto, o painel de degustação — que celebra agora o seu 40.º aniversário — continua a ser insubstituível: 150 painéis registados em 2026, com presença em 27 países.
O seu futuro reside na integração com narizes eletrónicos, IA e biomarcadores, bem como na resposta a um desafio pendente: ensinar os consumidores a valorizar o amargor e o picante como sinais de qualidade, em vez de defeitos.
A evidência científica, o maior trunfo do setor
A par da qualidade, a saúde está a emergir como um poderoso fator diferenciador. Os ensaios PREDIMED e CORDIOPREV confirmam que cada 25 gramas adicionais de azeite consumidos por dia reduzem o risco de doenças cardiovasculares em 16%, o risco de diabetes em 22% e a mortalidade por todas as causas em 11%. A investigação está a avançar no campo dos polifenóis — hidroxitirosol, oleuropeína e oleocanthal — e do seu papel na saúde cerebral e no envelhecimento saudável, abrindo simultaneamente as portas aos nutracêuticos derivados de subprodutos da azeitona.
Sustentabilidade verificada, não sustentabilidade declarada
A par da saúde vem a sustentabilidade: não como um argumento de marketing, mas como uma infraestrutura de confiança. Os 11 milhões de hectares de olivais funcionam como sumidouros de carbono; o COI está a desenvolver um sistema de certificação de créditos de carbono apoiado em blockchain; e a economia circular oferece um enorme potencial: apenas 20% do peso da azeitona é convertido em azeite, enquanto os restantes 80% podem ser transformados em energia, biofertilizantes e antioxidantes. A biodiversidade e os serviços ecossistémicos dos olivais têm também um valor económico mensurável, enquanto os quadros ESG e CSRD estão a transformar a sustentabilidade comprovada numa condição para o acesso ao mercado, em vez de um valor acrescentado opcional.
O Congresso também pôs fim ao debate mais alargado: tanto os sistemas tradicionais como os intensivos podem ser sustentáveis, desde que sejam devidamente geridos.
Do volume ao valor, e da produção à narrativa
Tudo isto está a ocorrer num mercado que tem continuado a crescer: o consumo global aumentou 83% desde a década de 1990 e atinge agora 3,2 milhões de toneladas, com os Estados Unidos como principal importador (35%) e um crescimento superior a 400% em mercados não pertencentes ao COI, como o Brasil, a China e o Japão. Mas a principal conclusão do Congresso não foi um número relativo à produção: foi o facto de os consumidores já não estarem simplesmente a comprar azeite, mas sim confiança, autenticidade, identidade e experiência. Não existe uma fórmula universal — cada mercado, cultura e geração requer mensagens e canais diferentes — e as redes sociais são agora essenciais para os consumidores mais jovens. A narrativa sobre a origem e o turismo do azeite transformam os visitantes em embaixadores. As crianças de hoje serão os consumidores de amanhã.
O Congresso contou com o apoio institucional do Conselho Oleícola Internacional (COI), do CIHEAM de Saragoça e da Fundação da Dieta Mediterrânica, juntamente com organismos públicos como o Ministério da Agricultura e dos Assuntos Marítimos de Portugal, o Governo Regional de Castela-La Mancha («Campo y Alma»), o Governo da Catalunha, o Governo Regional da Andaluzia e o IMIDRA.
Leia o Relatório Final aqui.
Fonte: OOW