04 de Novembro de 2026
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Por que precisamos de comer (e produzir) mais leguminosas em Portugal
2026-11-04
Qualfood

Se perguntarmos de onde vem o grão-de-bico com que é feito o húmus ou o feijão que encontramos na lata do supermercado, a resposta revela uma realidade desconfortável: Portugal produz uma fração quase insignificante das leguminosas que consome.

“Proteína de origem vegetal” é uma expressão que tem vindo a surgir com cada vez mais frequência no nosso dia-a-dia. Seja por razões de dieta ou de pegada ambiental, o facto é que o tema está na ordem do dia e a tendência é para que assim se mantenha.

A nível internacional, a Organização das Nações Unidas multiplica iniciativas para fomentar a produção e o consumo de proteínas vegetais com base em leguminosas, apontando-as como um pilar essencial para o futuro da alimentação e do planeta. No Reino Unido, a campanha “Bang in Some Beans”, apoiada por chefs e retalhistas, pretende duplicar o consumo até 2028. Na Austrália, o livro Level Up With Legumes propõe refeições fáceis de preparar. Nos EUA, as orientações alimentares para 2025-2030 também destacam o seu elevado valor nutricional.

No entanto, se perguntarmos se o consumo tem vindo a aumentar, a resposta é sim, mas de forma ainda muito lenta e pouco expressiva.

Mais ainda, e no nosso caso concreto, se perguntarmos de onde vem o grão-de-bico com que é feito o húmus ou o feijão que encontramos na lata do supermercado, a resposta revela uma realidade desconfortável: Portugal produz uma fração quase insignificante das leguminosas que consome.

Vivemos, assim, no meio de uma contradição curiosa: nós, os consumidores, adoramos falar de dietas saudáveis e de sustentabilidade, mas o país continua dramaticamente dependente do exterior para encher o prato com alimentos que fazem parte da nossa identidade e da nossa história agrícola há séculos.

Os dados recentes da Balança Alimentar Portuguesa do INE traçam o retrato exato desta contradição. No quinquénio recente, a disponibilidade diária de leguminosas secas no nosso país situou-se entre os 12,5 gramas e os 13,2 gramas por habitante (o equivalente a cerca de 4,6 a 4,8 quilos por pessoa por ano). Contudo, a ligeira subida registada foi impulsionada quase exclusivamente pelas importações, e não pela produção nacional.

O feijão seco representa cerca de dois terços das disponibilidades, seguido pelo grão-de-bico. Ainda assim, a disponibilidade média diária permanece manifestamente abaixo das recomendações da Roda dos Alimentos.

A experiência no setor confirma este desfasamento: a vontade de comer melhor nem sempre se traduz no momento das compras. Sem uma procura consistente, torna-se difícil dar escala ao mercado e incentivar a produção nacional. 

Não nos falta conhecimento agronómico ou variedades adaptadas. No Polo de Elvas do INIAV, anos de melhoramento genético permitiram desenvolver e manter variedades de grão-de-bico, tremoço, ervilha, fava, feijão, lentilha e chícharo perfeitamente adaptadas ao clima mediterrânico, com elevado potencial produtivo e qualidade.

A ironia é que várias destas variedades são procuradas e cultivadas noutros países, enquanto Portugal tarda em transformar esse património genético numa fileira forte e estruturada.

Também não falta vontade de mudar. Do lado dos agentes do setor agroalimentar, a determinação em inverter este caminho e pôr a fileira a funcionar é enorme.

O Centro de Competências CEREALTECH já desenhou um Roteiro para o Desenvolvimento das Culturas Proteaginosas. As prioridades são claras: atualizar o itinerário técnico, selecionar variedades adaptadas e aproximar agricultores e indústria, garantindo escala e homogeneidade ao produto.

Ao mesmo tempo, o setor dispõe de uma alavanca de mercado com provas dadas: a marca coletiva "Cereais do Alentejo". Inicialmente pensada para os cereais praganosos, expandiu o seu âmbito para ser um selo distintivo e um veículo de valorização também para as proteaginosas e oleaginosas nacionais, podendo garantir ao consumidor rastreabilidade total e transparência do campo até à prateleira do supermercado.

Além disso, a constituição do Grupo Colaborativo da Estratégia Nacional pela Proteína Vegetal, reunindo dezenas de entidades de investigação, academia, produção, indústria, retalho, ambiente e saúde, demonstra que o ecossistema nacional está pronto e alinhado para impulsionar a proteína vegetal.

Por último, ao nível das políticas públicas, vive-se um período de incentivo à produção de proteaginosas.

Se temos conhecimento, património e vontade, incluindo política, porque é tão difícil aumentar a área semeada de leguminosas?

Porque o agricultor enfrenta obstáculos práticos e concretos. Por um lado, as proteaginosas receberam, histórica e mundialmente, menos investimento em investigação do que outras culturas, o que resultou em ganhos de produtividade mais modestos; por outro, há um efetivo risco climático: a produção é maioritariamente de sequeiro. Num cenário de secas prolongadas e chuva irregular, o rendimento torna-se bastante incerto; e, finalmente, a rentabilidade é difícil: os preços são definidos no mercado internacional e com custos de produção crescentes e sem infraestruturas locais adequadas de limpeza, calibragem e secagem, as contas nem sempre compensam.

Para o agricultor arriscar a sementeira, precisa de escoamento garantido e de preços justos, sustentados pelo compromisso claro da agroindústria e da grande distribuição.

Vencer estes obstáculos vale a pena quando ponderamos os enormes benefícios ecológicos e nutricionais que as leguminosas oferecem ao nosso território e à nossa saúde.

As proteaginosas fixam azoto atmosférico através de simbioses naturais, enriquecendo a fertilidade dos solos e reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos nas rotações agrícolas.

Ao mesmo tempo, as leguminosas secas integram a Roda dos Alimentos e a Dieta Mediterrânica. Fornecem proteína de qualidade, fibra, minerais e vitaminas, aliando um perfil nutricional excelente a conveniência e preços acessíveis.

Portugal continua a apresentar uma balança comercial agroalimentar fortemente deficitária e importa milhares de toneladas de feijão e grão. No entanto, dispõe de condições de solo e clima, conhecimento técnico e capacidade para produzir mais, cumprindo as exigentes normas europeias de segurança alimentar e qualidade.

Contudo, transformar este potencial em realidade também depende diretamente de quem compra.

Cada escolha que fazemos no supermercado produz efeitos em toda a cadeia de valor. Se procurarmos apenas o preço mais baixo sem valorizar a origem, o retalho não incentivará a indústria a comprar em Portugal e o agricultor terá cada vez menos razões para semear.

Comer mais leguminosas e valorizar a produção nacional é uma forma concreta e acessível de apoiar o país que queremos construir.

Comecemos então a comê-las para que comecemos, também, a produzi-las. Com a segurança e a qualidade tão amplamente reconhecidas aos produtos portugueses.

Fonte: sapo.pt

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