Um consumidor mais velho, lares mais pequenos, inteligência artificial em toda a cadeia de valor e inovação sob pressão. A Alimentaria reuniu especialistas, empresas e associações do sector para identificar as principais tendências que estão a transformar o grande consumo, num momento em que a colaboração entre fabricantes, distribuidores e empresas tecnológicas se afirma como uma condição para crescer.
Ao longo dos próximos dias, a Grande Consumo irá aprofundar algumas dessas tendências numa série de artigos dedicados às mudanças que já estão a redefinir o mercado. Este primeiro capítulo centra-se no consumidor: quem é, como vive, de que forma compra e que novas prioridades estão a alterar o cabaz.
Diferente de há cinco anos
O consumidor que entra hoje numa loja já não é o de há cinco anos. É mais velho, vive sozinho ou a dois com maior frequência, tem mais animais de estimação do que filhos em casa e decide cada vez mais depressa, muitas vezes sem lista, sem planeamento e sem grande disponibilidade para pagar por uma “novidade” que não reconhece como verdadeiramente diferente.
Este retrato, construído a partir de dados recentes do sector apresentados em Barcelona, ajuda a compreender por que razão tantas marcas sentem que estão a inovar mais do que nunca e, simultaneamente, a convencer cada vez menos.
A contradição está nos números: sete em cada dez consumidores compram algo “novo” em cada visita à loja, mas quase três quartos dos lançamentos são entendidos apenas como variações de produtos já existentes. O preço tornou-se o principal obstáculo à experimentação e apenas duas em cada dez apostas de inovação sobrevivem no mercado a médio prazo.
Ainda assim, quase metade da indústria prevê lançar mais produtos em 2026, porque deixar de inovar continua a representar um risco maior do que falhar.
A demografia já está a redesenhar o cabaz
Marta Munné, shopper insights manager da AECOC, traçou um retrato demográfico que já não constitui novidade, mas cujo impacto no cabaz continua a intensificar-se. O número de consumidores com mais de 65 anos aumentou 17% nos últimos anos. Chegam às lojas mais ativos, mais atentos à saúde e ao bem-estar e cada vez mais presentes como prescritores digitais. Há já senior influencers a moldar tendências nas redes sociais, enquanto alguns retalhistas adaptam os espaços e os serviços, nomeadamente através da instalação de elevadores para cestos de compras.
Em paralelo, os lares estão a encolher. Aumentam os agregados compostos por uma ou duas pessoas, muitos deles “ninhos vazios”, que tendem a comprar sem lista e a manter-se fiéis à loja habitual. Frequentam menos os canais organizados, complementando as compras com o comércio de proximidade, e respondem melhor aos descontos em produtos frescos de curta validade do que às grandes promoções de volume.
A esta transformação junta-se uma população de origem imigrante que já ronda os dez milhões de pessoas em Espanha, sobretudo provenientes da América Latina, embora Marrocos se destaque enquanto país de origem. Esta diversidade está a levar as marcas a alargar os sortidos. Os produtos halal, por exemplo, já integram a oferta da Sigma Alimentos.
Também os animais de estimação estão a redefinir as prioridades dos lares. Já há mais agregados com animais (67%) do que com filhos (50%), percentagem que desce para 33% quando considerados apenas os menores de 18 anos. Os chamados pet parents tendem a reduzir outras despesas antes de cortar no orçamento destinado aos animais. Estes lares apresentam, em média, maior poder de compra e maior propensão para escolher marcas de fabricante e produtos sustentáveis, ecológicos ou de origem vegetal, tanto para consumo próprio como para os seus animais.
O cabaz reflete todas estas mudanças. Metade dos lares espanhóis chega ao fim do mês com o orçamento no limite, o que aumenta a procura por promoções, a disponibilidade para mudar de estabelecimento em busca de melhores ofertas e o recurso a compras de acumulação quando a poupança o justifica. Os cabazes tornam-se mais pequenos, mas as visitas às lojas mais frequentes. Consolida-se, assim, uma “cesta mista”, que combina marca própria e marca de fabricante em função da categoria, do preço e do momento de consumo. A escolha deixou de ser binária: passou a ser uma gestão permanente de prioridades.
Depois desta análise ao novo consumidor, os próximos artigos irão explorar outras frentes decisivas para o futuro do grande consumo: a inovação, o papel das marcas, a transformação tecnológica, a colaboração na cadeia de valor e a regulação.
Fonte: Grande Consumo