A incorporação de ingredientes “upcycled” – matérias-primas reaproveitadas a partir de subprodutos alimentares e agrícolas – está a redefinir o sector da cosmética, à medida que cresce a procura por soluções sustentáveis e alinhadas com os princípios da economia circular. A conclusão é de um estudo recente da GlobalData, que aponta para uma mudança estrutural na forma como produtos de beleza são desenvolvidos e comunicados.
De acordo com um inquérito global realizado no último trimestre de 2025, 47% dos consumidores afirmam que critérios éticos, ambientais ou sociais influenciam frequentemente as suas decisões de compra de produtos de beleza. Esta tendência está a pressionar as marcas a apresentarem provas mais concretas sobre a origem dos ingredientes e o impacto ambiental das suas formulações.
Neste contexto, ingredientes “upcycled” – como óleos, ativos, esfoliantes e pós funcionais – ganham protagonismo. Estes materiais, recuperados de resíduos como cascas de fruta, sementes, borras de café ou subprodutos de cereais, estão a ser transformados em componentes de valor acrescentado para produtos de skincare, haircare e maquilhagem.
“Os consumidores estão cada vez mais céticos em relação a alegações genéricas de sustentabilidade e procuram evidência clara sobre origem e impacto”, explica Greeshma Kasturi Katamaneni. “Os ingredientes upcycled destacam-se porque permitem narrativas mais rastreáveis e mensuráveis, desde que sustentadas por verificação robusta e desempenho consistente”, acrescenta.
Historicamente descartados ou utilizados em aplicações de baixo valor, muitos subprodutos da indústria alimentar – como sementes, polpas ou cascas – contêm compostos relevantes para a cosmética, incluindo ácidos gordos, vitaminas e antioxidantes. A sua valorização permite não só reduzir desperdício, mas também aumentar a eficiência das cadeias de produção.
A indústria já começa a traduzir esta tendência em produtos concretos. Borras de café são usadas como agentes esfoliantes, sementes de frutas como melancia ou framboesa são transformadas em óleos nutritivos, enquanto cascas de uva ou citrinos dão origem a extratos antioxidantes. Também subprodutos de aveia ou arroz têm vindo a ser incorporados em fórmulas para peles sensíveis.
Apesar do potencial, a escalabilidade continua a ser um desafio. A conversão destes resíduos em ingredientes com qualidade cosmética exige cadeias de abastecimento eficientes e uma forte articulação entre fornecedores e laboratórios. Variáveis como colheita, processamento e armazenamento podem influenciar características como cor, odor ou concentração de ativos, tornando essenciais os processos de controlo de qualidade e padronização.
Para as marcas, a aposta em ingredientes “upcycled” representa não apenas um contributo para a sustentabilidade, mas também uma oportunidade de diferenciação num mercado cada vez mais competitivo. A capacidade de demonstrar impacto real, com métricas claras e comunicação transparente, será determinante para transformar esta tendência numa vantagem duradoura.
Fonte: Grande Consumo