O açúcar pode provocar um efeito no cérebro semelhante ao da cocaína, segundo estudos recentes realizados nos Estados Unidos da América (EUA).
Existem actualmente evidências convincentes de que os alimentos ricos em gordura, açúcar e sal podem alterar a química do cérebro, da mesma forma como drogas altamente viciantes, como a cocaína e heroína.
A ideia, considerada anteriormente marginal, está rapidamente a tornar-se numa visão comum entre investigadores na sequência de novos estudos. Apesar disso, os mecanismos biológicos que levam ao vício em “junk food” ainda não foram revelados.
Alguns investigadores afirmam que existem dados suficientes para justificar a regulação do sector de “fast food” e as advertências de saúde pública sobre os produtos que têm níveis perigosos de açúcar e gordura.
“Temos que educar as pessoas sobre como os seus cérebros são hipnotizados por gordura, açúcar e sal”, afirma David Kessler, ex-comissário da FDA (agência reguladora americana de alimentos e medicamentos) e agora director do Centro para Ciência no Interesse Público, com sede em Washington DC.
Em 2001, fascinado pelo fenómeno cultural emergente, os neurocientistas Nicole Avena, agora na Universidade da Florida, em Gainesville, e Bartley Hoebel, da Universidade de Princeton, começaram a explorar a ideia de se ter uma base biológica. Ambos começaram a procurar sinais de vício em animais que eram alimentados com “junk food”.
O açúcar é um ingrediente chave na maioria da “junk food”, por isso ofereceram um xarope da substância a ratos, de concentração similar ao do açúcar presente num refrigerante comum, durante cerca de 12 horas por dia. Ao mesmo tempo, outros ratos eram alimentados com água e comida normal.
Depois de apenas um mês nessa dieta, os ratos desenvolveram mudanças de comportamento no cérebro, identificadas por Avena e Hoebel como idênticas às dos animais viciados em morfina. Ainda demonstraram um comportamento ansioso quando a calda foi removida.
Os investigadores notaram que os cérebros dos ratos liberavam o neurotransmissor dopamina cada vez que tomavam a solução de açúcar, mesmo depois de terem bebido por semanas.
A dopamina é um produto químico do cérebro vital para a aprendizagem, memória e tomada de decisão. “Eu esperava que esta fosse libertada quando eles comessem um alimento novo”, afirma Avena, "não com o que eles já estavam habituados. Essa é uma das marcas da dependência de drogas".
A evidência encontrada foi a primeira concreta de uma base biológica para a dependência do açúcar que inspirou uma série de estudos com animais.
Os resultados estão entre as novidades mais interessantes em pesquisas de obesidade dos últimos 20 anos, de acordo com Mark Gold, autoridade internacional em estudos sobre alcoolismo e chefe do departamento de psiquiatria da Universidade de Medicina da Florida.
Desde o estudo de Avena e Hoebel, dezenas de outras pesquisas em animais confirmaram os resultados. Mas foram os recentes estudos em humanos os responsáveis pelas evidências em favor da rotulagem de “junk food” como um vício.
O vício é vulgarmente descrito como um entorpecente dos circuitos de recompensa desencadeado pelo uso excessivo de alguma droga. Isto é exactamente o que acontece no cérebro de indivíduos obesos, segundo Gene-Jack Wang, presidente do departamento médico do US Department of Energy´s Brookhaven National Laboratory, em Upton, Nova Iorque. Noutro estudo publicado em 2001 na revista The Lancet, o cientista descobriu uma deficiência de dopamina no estriado do cérebro de indivíduos obesos que era praticamente idêntico ao dos dependentes de drogas.
Fonte: Diário Digital