Os consumidores optam cada vez mais pela carne, pescado e ovos, enveredando por uma dieta com excesso de calorias, gorduras saturadas e óleos em detrimento dos frutos, legumes e leguminosas secas. A conclusão é do Instituto Nacional de Estatística (INE), que avaliou a situação alimentar e nutricional dos portugueses.
Em comparação com o padrão alimentar preconizado na roda dos alimentos, os grupos da "carne, pescado e ovos" e "óleos e gorduras" registaram um consumo excedentário em 11 %, enquanto o grupo dos “hortícolas” um consumo deficitário em 10 %.
Ao longo dos cinco anos em análise, o consumo de carne aumentou cerca de 7 %, a uma taxa média anual de 1,1 %. O consumo da carne de animais de capoeira foi a que mais aumentou, apesar da crise dos nitrofuranos e da gripe das aves em 2003 e 2006 respectivamente, tendo sido verificado um aumento de 16 % da disponibilidade desta carne.
A carne de suíno continua a ser a mais disponível em Portugal (38 % em 2008). Em contrapartida, o consumo dos produtos de origem vegetal desceu anualmente 0,7 %.
O INE nota que esta tendência começou a consolidar-se na década de 90, sendo “previsível que os produtos de origem venham ainda a ganhar mais peso na alimentação da população residente em Portugal”.
Após referir que existe uma tendência para o consumo de gorduras de origem animal, o INE apurou que a "disponibilidade para o consumo de gorduras saturadas excede as recomendações internacionais e é um dos principais factores de risco para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares".
No âmbito do consumo de peixe, que subiu 21 %, o peso do bacalhau baixou 20 % no total da estrutura de consumo do pescado.
Depois de sublinhar os desequilíbrios no consumo dos nutrientes, o INE defende uma “selecção mais criteriosa e variada dos grupos dos alimentos”, bem como a moderação do consumo.
Apesar do aumento dos lacticínios disponíveis para consumo de 6 % entre 2003 e 2008, o aumento de 14,6 % dos preços no produtor em 2007, e da consequente subida do preço do leite e dos lacticínios junto do consumidor, deu origem a uma redução do consumo.
Na origem desta "inflexão está a falta de matéria-prima verificada na indústria transformadora de lacticínios ao nível da União Europeia, com início em 2007 e cujas repercussões se estenderam até 2008".
O INE verificou, nos anos de 2007 e 2008, que os preços mais elevados originaram “uma retracção no consumo, principalmente em produtos de alto valor acrescentado como o queijo e os iogurtes”.
Cresce consumo de cereais, arroz, azeite e cacau
Por outro lado, a quebra dos stocks de cereais na União Europeia, gerada pela redução na produção dos EUA e da Rússia, não se verificou em Portugal. Pelo contrário, foi registado em 2008 um aumento de 1 % na disponibilidade destes produtos.
Os dados apontam ainda para a substituição, desde a década de 90, das raízes e tubérculos por cereais e arroz. Portugal é o maior consumidor de arroz da Europa, seguido de Espanha e Itália. A disponibilidade média anual per capita de arroz atinge os 17,3 quilos/ano.
O INE apurou também a tendência da substituição da margarina por azeite. “Esta inversão deve ser encarada de forma muito positiva, já que reforça a utilização de uma gordura mais saudável, com valor nutricional comprovado e com benefícios inquestionáveis para a saúde”, lê-se na publicação.
O consumo de produtos agrícolas diminuiu 8% ao longo do período analisado. A maçã foi o fruto com maiores quantidades disponíveis para consumo, mas em média cada português consumiu meia maçã por dia entre 2003 e 2008.
O INE refere que, a partir de 2007, as quantidades disponíveis para consumo de cacau e chocolate ultrapassaram as do café, verificando-se aqui outra das alterações aos padrões de consumo com o crescimento de 29 %. Portugal ocupa a 15ª posição entre os 27 Estados-membros da UE no que respeita ao consumo de café.
Portugueses preferem a cerveja
A cerveja é a bebida alcoólica mais consumida pelos portugueses e o vinho mantém a tendência de decréscimo iniciada na década de 90.
A quantidade disponível para consumo diário per capita de bebidas alcoólicas diminuiu oito % entre 2003 e 2008, embora a realização do Campeonato Europeu de Futebol em Portugal tenha impulsionado o consumo em 1 %, encabeçado pela cerveja.
De acordo com o INE, “a cerveja tem sido a bebida alcoólica com maiores disponibilidades para consumo diário per capita, 55 % do total em 2008, sobrepondo-se claramente ao vinho, cujas disponibilidades decresceram cerca de 10 %, seguindo a tendência que se iniciou na década de 90, e cuja importância face ao total de bebidas alcoólicas rondava os 40 % em 2008”.
Relativamente às bebidas não alcoólicas, as águas e os sumos registaram aumentos de consumo. “Para este aumento terá contribuído a expansão acentuada das marcas brancas da distribuição que são vendidas a preços inferiores”, lê-se no documento.
“Realça-se ainda que, em termos da estrutura de consumo das bebidas não alcoólicas, a água ganhou importância face aos refrigerantes, denotando uma maior preocupação dos consumidores por opções mais saudáveis e equilibradas”, concluiu o INE.
Fonte: RTP