A ideia de que os frutos e vegetais biológicos são mais seguros que os tradicionais, pois os últimos podem conter resíduos de pesticidas que estão associados ao risco de cancro, não tem um bom fundamento científico, defende um especialista na doença. Tais receios podem ter como consequência a redução do consumo de frutos e vegetais por parte das populações mais desfavorecidas, salienta.
O especialista, que dá pelo nome de Bruce N. Ames, desenvolveu um teste que permite analisar possíveis cancerígenos, ao qual foi atribuído o seu próprio nome.
Ames esteve presente na «242nd National Meeting & Exposition of the American Chemical Society (ACS)», onde descreveu a sua "teoria da triagem", que explica como a falta de vitaminas e minerais essenciais - presentes em frutas e vegetais - na dieta das pessoas mais jovens pode levar ao cancro e a outras doenças a longo prazo.
O teste de Ames utiliza uma bactéria para avaliar, mediante a ocorrência de mutações genéticas no DNA desta, o potencial carcinogénico das substâncias em estudo.
No evento da ACS, Ames referiu que os estudos actualmente realizados com animais rotulam injustamente muitas substâncias, como pesticidas e outros químicos sintéticos, como perigosas para os seres humanos. A investigação de Ames e Lois Swirsky Gold indica que quase todos os pesticidas existentes na dieta humana são substâncias presentes naturalmente nas plantas para protegê-las de insectos.
Nos ensaios realizados com animais - nos quais são utilizadas doses muito elevadas de produtos químicos, como pesticidas - as doses máximas admissíveis estão a ser mal interpretadas, levando a crer que doses muito reduzidas na dieta humana são relevantes para o risco de cancro. 99.99 % dos pesticidas que ingerimos estão naturalmente presentes nas plantas para as proteger de insectos e de outros predadores. Mais de metade dos químicos testados, quer sejam sintéticos ou naturais, revelam-se carcinogénicos nos testes realizados com roedores, refere Ames. Este investigador acredita que isto se deve à dose utilizada, não se aplicando a doses mais reduzidas.
Em doses muito reduzidas, muitas destas substâncias não são motivo de preocupação para os seres humanos, salientou. Por exemplo, uma chávena de café contém 15 a 20 pesticidas naturais e químicos, resultantes da torrefacção do café, que dão resultados positivos nos testes de cancro em animais, mas estão presentes em quantidades muito reduzidas. A ingestão de pesticidas através de alimentos frescos é ainda menos preocupante, segundo Ames - a quantidade média de resíduos de pesticidas que uma pessoa ingere ao longo de um ano inteiro é ainda menos do que a quantidade de substâncias "nocivas" presentes numa chávena de café. E, na verdade, até existem evidências que sugerem que o consumo de café protege contra o risco de cancro em seres humanos.
O medo "infundado", no que respeita aos perigos associados aos resíduos de pesticidas em frutas e vegetais, pode levar muitos consumidores a não comprarem estes produtos frescos e saudáveis. Em resposta, são comercializados em alguns locais produtos “biológicos”, que são cultivados sem pesticidas sintéticos. No entanto, estes produtos são muito caros e, por conseguinte, inalcançáveis para muitas populações que apresentam baixos rendimentos. Como consequência, muitas pessoas, especialmente as mais pobres, podem passar a consumir menos frutas e vegetais.
Mas como é que a falta de frutas e vegetais pode aumentar o risco de cancro e de outras doenças normalmente associadas ao envelhecimento? É aqui que entra a teoria de Ames.
Quando o organismo sente falta de algum nutriente é forçado a compensar esta privação, e isto tem consequências a longo prazo.
“A teoria defende que, como resultado da escassez recorrente de vitaminas e minerais durante a evolução, a selecção natural desenvolveu uma resposta metabólica de reequilíbrio", referiu Ames. O reequilíbrio favorece as necessidades nutricionais do momento, em detrimento das necessidades que surgem a longo prazo. Ames salienta que a teoria é fortemente apoiada por trabalhos recentes.
Por exemplo, se uma pessoa apresenta uma dieta pobre em cálcio – um nutriente essencial para diversos processos no organismo – o organismo vai buscá-lo onde este existe, geralmente aos ossos. O organismo não se preocupa com o risco de osteoporose a longo prazo quando se confronta com uma situação de emergência a curto prazo. Assim, ocorrem danos ao nível dos órgãos e/ou do DNA sempre que a dieta de uma pessoa é pobre em vitaminas e minerais, o que potencia doenças normalmente associadas ao envelhecimento, como a osteoporose, doenças relacionadas com a perda de capacidades cognitivas, problemas cardiovasculares e cancro.
Fonte: Science Daily