Portugueses reduziram em um grama o sal que consomem. Mas o objectivo é baixar dos dez gramas diários para cinco.
Os portugueses consomem o dobro da quantidade de sal aconselhada: cerca de dez gramas, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselha que não se ultrapasse os cinco gramas por dia (o que equivale a dois gramas de cloreto de sódio)
Os avanços dos últimos anos devem-se à iniciativa para reduzir a quantidade de sal no pão, mas também, a uma maior consciencialização da indústria de restauração colectiva que assegura o catering em escolas, hospitais e serviços públicos. Há quatro ou cinco empresas que têm 80% do mercado, basta estas alterarem as suas práticas para se sentir o efeito.
O último estudo feito em Portugal foi realizado em 2012 pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), através do método de análise da urina. As conclusões indicam que a ingestão média é de 10,7 gramas de sal por dia, enquanto estudos de 2006 revelavam uma ingestão média de 11,9 gramas.
A diminuição pode ser explicada, em parte, por os consumidores estarem mais conscientes dos riscos do uso excessivo de sal, mas o consumo doméstico representa apenas cerca de 30% do total. O relatório cita estudos realizados em países ocidentais que mostram que entre 60% e 80% do consumo de sal provém dos alimentos industrializados, de restaurantes e cantinas - o mesmo confirmam estudos realizados em Portugal.
Isto significa que muito do trabalho tem de ser feito junto da restauração e da indústria. A restauração é uma área mais difícil porque se trata geralmente de pequenos negócios individuais. Mas a indústria tem reagido de forma positiva. Regista-se já uma redução do sal nos cereais de pequeno-almoço, por exemplo, e também nas marcas brancas de super e hipermercados nacionais.
Mas a crise traz novas preocupações. A situação económica e a fragilidade social de muitas famílias potenciam consumos aumentados de produtos preservados com sal, nomeadamente conservas, processados de carne, produtos de pastelaria e fast food que, nestas condições, acabam por substituir total ou parcialmente algumas refeições, aumentando as ingestões diárias de sal.
Polémica nos EUA
Os dados disponíveis relativamente à ingestão de sal são de 2012. Não se sabe o que está a acontecer no último ano em que, pelos dados que se têm, as pessoas estão a mudar o seu consumo, passando para alimentos mais baratos mas dentro das mesmas categorias. Um exemplo: Substituir um bife por um folhado de carne é consumir mais sal e gordura.
É importante obter dados actualizados, até porque as médias podem ser enganadoras e esconder problemas relacionados com as populações mais vulneráveis. Mas há uma boa notícia: uma candidatura dos EEA Grants, programa de apoio lançado pela Noruega, deverá permitir avançar, ainda este ano, com o Inquérito Alimentar Nacional para avaliar a alimentação dos portugueses.
Portugal não é um caso único no consumo excessivo de sal, porque na maioria dos países da Região Europeia da OMS a ingestão de sal está muito acima da quantidade sugerida, mas é, um dos que apresentam uma maior taxa de mortalidade provocada por acidente vascular cerebral (AVC), sendo a hipertensão arterial um dos factores de risco mais relevantes.
Curiosamente, a iniciativa para a redução do consumo de sal em Portugal coincide com uma polémica nos Estados Unidos, onde um comité de peritos defendeu que não se deve baixar excessivamente a ingestão de sal, e que o valor de 1,5 gramas de sódio recomendado pela Associação Americana do Coração é demasiado baixo e pode, inclusivamente, ser prejudicial para a saúde. Quando se desce abaixo dos 2,3 gramas de cloreto de sódio, deixamos de ter dados em termos de benefícios e começam a surgir em alguns subgrupos da população indícios de potenciais prejuízos, dizem os peritos.
Na questão do consumo de sal, quando cai abaixo de um determinado nível deixa de ser benéfico para passar a poder ser prejudicial, o que acontece noutros casos, não há ainda dados suficientes. Por isso, aconselha-se a redução para seis gramas de sal por dia e, com os níveis de consumo que temos em Portugal, ainda estamos muito longe de termos de nos preocupar com uma descida excessiva.
Neste momento, uma parte substancial da população (42,2%) continua a sofrer de hipertensão, segundo o estudo PHYSA - Portuguese Hypertension and Salt Study, realizado pela SPH e apresentado este ano. Esta percentagem não se alterou desde o estudo anterior, de 2003, embora se tenham registado progressos significativos no tratamento e controlo: 42,6% têm a doença controlada, o que é um valor quatro vezes superior ao de 2003.
Fonte: Público