A descarbonização dos transportes é um dos grandes desafios da transição energética. Para reduzir as emissões associadas à mobilidade, será necessário recorrer a diferentes soluções.
A mobilidade elétrica é a alternativa mais evidente para os novos veículos ligeiros, mas os biocombustíveis destacam-se por poderem ser utilizados nos motores e infraestruturas existentes, contribuindo para uma redução imediata das emissões nos setores rodoviário, marítimo e da aviação.
Desta forma, os biocombustíveis, a eletrificação, o hidrogénio renovável e os combustíveis sintéticos, terão papéis distintos, em função das suas características, maturidade tecnológica e necessidades específicas de cada aplicação.
Mas nem todos os biocombustíveis são iguais. A sua classificação depende da matéria prima utilizada para os produzir e existe uma regulamentação europeia, Renewable Energy Directive (RED), que estabelece metas especificas para cada categoria.
Os primeiros biocombustíveis eram obtidos a partir de culturas agrícolas que competiam com a cadeia alimentar. Embora continuem a ter um papel em alguns mercados, a sua utilização tem vindo a ser limitada e em Portugal tem já pouca expressão.
Nos últimos anos, o desenvolvimento tecnológico permitiu utilizar matérias-primas residuais como óleos alimentares usados, gorduras residuais ou resíduos agrícolas, florestais e industriais.
Esta evolução permite produzir combustíveis renováveis com menor impacto no uso dos recursos naturais, sem competir diretamente com a cadeia alimentar, e com maior redução de gases com efeito de estufa. Sāo os biocombustíveis avançados.
A partir de óleos e gorduras residuais podem ser produzidos dois tipos principais de substitutos do gasóleo: FAME (biodiesel) e HVO (óleo vegetal hidrotratado).
Enquanto o FAME está limitado a uma incorporação máxima de 10% no gasóleo convencional, ou a ser comercializado sob a forma de mistura rica de biocombustível, por exemplo B15 ou B30 (15% ou 30% de FAME), o HVO pode ser utilizado na forma de combustível 100% renovável.
O FAME pode também ser comercializado puro (B100), mas apenas para frotas pesadas. Na gasolina, a incorporação é sobretudo feita através de bioetanol (um álcool), limitada a 5% ou 10% (E5 e E10) ou de bionafta renovável que substitui componentes da gasolina convencional.
As mesmas matérias-primas e tecnologias utilizadas para produzir HVO, podem ser utilizadas para produzir combustível de aviação, o SAF (Sustainable Aviation Fuel). Em muitas unidades industriais a produção entre HVO e SAF depende das condições operatórias e da configuração da unidade, que pode ser concebida para produzir ambos os produtos.
Nos últimos anos, o mercado português dos biocombustíveis tem registado um crescimento sustentado, refletindo o esforço de descarbonização do setor dos transportes e a crescente incorporação de energias renováveis em todos os combustíveis comercializados.
Entre 2022 e 2025, o volume de biocombustíveis avançados incorporados mais do que duplicou, passando de cerca 133 mil metros cúbicos para cerca de 428 mil metros cúbicos.
No mesmo período, o peso dos biocombustíveis avançados no total dos biocombustíveis incorporados aumentou de 29% para 88%, evidenciando uma rápida transição para matérias-primas com maior potencial de redução de emissões.
Esta evolução tem contribuído de forma significativa para a redução das emissões do setor, sendo que os biocombustíveis avançados representaram mais de 80% do CO₂ evitado em Portugal entre 2021 e 2024, atingindo só no ano de 2024, o equivalente a cerca de 1,5 milhões de toneladas de CO₂2.
Esta tendência evidencia uma adoção progressiva dos combustíveis mais sustentáveis, impulsionada tanto pelo quadro regulatório como pela procura de soluções capazes de reduzir emissões.
Os biocombustíveis avançados destacam-se ainda pelo seu potencial para conciliar objetivos climáticos e princípios de economia circular, aliando assim inovação e sustentabilidade.
A recolha e valorização de matérias-primas residuais contribui para a criação de novas cadeias de valor industriais e económicas.
Simultaneamente, o desenvolvimento da capacidade nacional de produção de biocombustíveis avançados representa uma oportunidade estratégica para reforçar a resiliência energética do país.
Ao produzir biocombustíveis em território nacional, podemos reduzir a dependência de energia importada, reforçando a segurança do abastecimento energético num contexto de crescente instabilidade geopolítica e volatilidade dos mercados internacionais.
Existem, todavia, desafios que não devem ser ignorados, como a garantia de competitividade, a sustentabilidade das matérias-primas e o quadro regulatório.
A existência de um enquadramento regulatório estável e previsível, em particular, será fundamental para estimular o investimento e a inovação.
Ao aliarem valorização de resíduos, redução de emissões e utilização das infraestruturas existentes, os biocombustíveis avançados são uma solução imediata para uma transição energética mais justa e acessível.
Fonte: Eco.sapo