A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apresentou um novo programa global para reforçar a prevenção e o controlo de doenças animais transfronteiriças, consideradas uma ameaça à segurança alimentar, aos meios de subsistência e ao comércio.
De acordo com a comunicação, o Programa de Parceria Global da FAO para Doenças Transfronteiriças dos Animais pretende apoiar os países na resposta a doenças prioritárias, através de plataformas nacionais que reúnam governos, setor privado, produtores, fundações, organizações de agricultores e instituições financeiras.
Segundo a FAO, estas doenças podem propagar-se rapidamente entre países e afetar de forma mais intensa os países de baixo e médio rendimento. Em alguns casos, podem também chegar às populações humanas, com consequências graves.
“Devemos garantir que o próximo capítulo da saúde animal global não seja definido por crises, mas sim por cooperação, responsabilidade e sucesso partilhado”, afirmou Qu Dongyu, diretor-geral da FAO, durante um evento de alto nível com ministros e representantes governamentais.
O responsável sublinhou que as doenças animais transfronteiriças continuam a ser uma das ameaças mais urgentes à segurança alimentar global, aos meios de subsistência e à saúde.
Qu Dongyu afirmou que estas doenças “estão a espalhar-se mais depressa, mais longe e com maior impacto nas economias e nos meios de subsistência do que nunca”.
Prevenção e abordagem “One Health”
A FAO defende que a prevenção tem custos inferiores aos da inação. Segundo a organização, a recente introdução do serótipo SAT1 da febre aftosa na Ásia poderá originar perdas anuais de 2 mil milhões de dólares, de acordo com uma avaliação de impacto da FAO.
Para o diretor-geral da organização, o investimento na prevenção, numa fase inicial e através de uma abordagem integrada de “One Heatlh”, é essencial para evitar crises posteriores.
“Não podemos mais falar apenas de doenças zoonóticas. Precisamos de uma interpretação correta de uma abordagem holística de “Uma Só Saúde” que abranja a saúde do solo, a saúde animal, a saúde vegetal, a saúde humana e a saúde ambiental”, afirmou.
A 44.ª Sessão da Conferência da FAO, realizada em julho de 2025, reconheceu a importância da prevenção, deteção e resposta à disseminação de doenças animais transfronteiriças. Desde então, a organização tem promovido consultas com os seus membros, em conferências regionais e na sede da FAO, para desenvolver um novo modelo de financiamento, parceria e solidariedade.
Atualmente, 110 países enviaram cartas oficiais ao diretor-geral da FAO a manifestar interesse em aderir ao novo programa.
Novo modelo de financiamento e governação
O Programa de Parceria Global para Doenças Transfronteiriças dos Animais pretende reforçar a capacidade criada ao longo de mais de 20 anos pelo Centro de Emergência para Doenças Transfronteiriças dos Animais da FAO.
A nova abordagem representa uma mudança face aos modelos anteriores, que assentavam sobretudo em projetos financiados por doadores, com a FAO a atuar como entidade implementadora.
Com o novo programa, a FAO propõe uma arquitetura de governação global e modelos de financiamento mais diversificados. Os países passam a liderar a implementação, com apoio técnico da organização ajustado às necessidades e ao contexto local.
O modelo prevê plataformas nacionais como elemento central da resposta, polos regionais para coordenar a ação transfronteiriça e uma coordenação global assegurada pela FAO.
A organização continuará também a fornecer informação sobre doenças, alertas precoces, orientações normativas e apoio de emergência através do seu programa EMPRES.
Cinco áreas de intervenção
O programa trabalhará em cinco áreas principais: prevenção e controlo progressivo de doenças; vigilância digital, alerta precoce e inovação em saúde animal; preparação e ação antecipatória baseada no risco; resposta coordenada e rápida a emergências; e legislação, parcerias e modelos de financiamento.
O financiamento será baseado num modelo diversificado e de solidariedade. Todos os países participantes deverão contribuir de acordo com a sua capacidade, com apoio complementar de parceiros de desenvolvimento, instituições financeiras internacionais e setor privado.
Ao nível global, será criado um Comité Diretivo para orientação estratégica, com representação equilibrada entre regiões. Está também previsto um grupo consultivo técnico, que integrará parceiros técnicos relevantes e acompanhará a supervisão estratégica do programa.
Qu Dongyu definiu o GPP-TAD como “uma plataforma global sólida para a solidariedade, a responsabilidade partilhada e o investimento sustentável e previsível”.
“Alimentos saudáveis provêm de solos saudáveis, plantas saudáveis e animais saudáveis para um ambiente saudável e uma vida saudável”, concluiu.
Fonte: Vida Rural