O consumidor contemporâneo enfrenta uma contradição: demonstra crescente preocupação com a evolução do mundo, mas continua a acreditar na possibilidade de melhorar a própria vida. É uma das conclusões centrais da 10.ª edição do “Ipsos Global Trends”, que analisou atitudes, valores e expectativas em 38 mercados.
A investigação revela que apenas um quarto dos participantes encara com otimismo o futuro global nos próximos 12 meses, enquanto 36% está otimista relativamente ao futuro do seu país. Em contrapartida, 55% apresenta expectativas positivas quanto à sua situação pessoal e familiar. Para a Ipsos, esta diferença representa uma transformação importante: a esperança tornou-se mais pessoal.
O relatório identifica um contexto de crescente volatilidade económica, geopolítica e social. As alterações climáticas, os conflitos internacionais, a transformação do emprego e a rápida evolução tecnológica estão a tornar mais difícil antecipar o futuro.
Contudo, o otimismo individual também revela sinais de fragilidade. Numa comparação de 15 mercados acompanhados desde 2013, a proporção de participantes otimistas relativamente ao futuro pessoal e familiar encontra-se no nível mais baixo da série. Esta evolução pode ter implicações económicas, uma vez que a confiança no futuro influencia a disponibilidade para realizar despesas de maior dimensão.
No índice composto de otimismo apresentado pela Ipsos, Portugal regista 97 pontos, ligeiramente acima dos 90 pontos de Espanha. O indicador português situa-se também acima dos resultados de Reino Unido, Itália, Alemanha e França.
Estes resultados permitem comparar o sentimento relativo entre mercados, mas não demonstram diretamente como os consumidores portugueses estão a alterar os hábitos de compra. Para estabelecer essa relação, seria necessário cruzar os dados de confiança com indicadores de despesa, frequência de compra e consumo efetivo.
Uma das transformações identificadas pela Ipsos está relacionada com a forma como os consumidores constroem relações de confiança. A desconfiança nas instituições coexiste com a valorização de referências familiares. Segundo o estudo, 77% dos participantes afirma confiar mais num novo produto quando este pertence a uma marca que já conhece.
A preferência por produtos nacionais constitui outro sinal desta evolução: 70% afirma privilegiar produtos do próprio país.
Estas atitudes sugerem que, perante a incerteza, a familiaridade e a proximidade podem desempenhar um papel importante na redução do risco percecionado nas decisões de compra. Para as marcas, a notoriedade continua a representar um ativo relevante, mas a Ipsos alerta que a confiança tem de ser sustentada por comportamentos e resultados concretos.
A procura de autonomia constitui uma das tendências em aceleração identificadas pelo relatório. Segundo a Ipsos, os consumidores estão a atribuir maior importância à capacidade de tomar decisões, desenvolver competências e definir objetivos pessoais.
Esta evolução não significa necessariamente uma redução das ambições. Pelo contrário, o estudo mostra que os objetivos tradicionais continuam a ser valorizados, embora muitas pessoas considerem cada vez mais difícil alcançá-los.
Em resposta, aumenta a atenção a formas de satisfação e progresso que possam ser concretizadas no presente. A tendência poderá influenciar decisões de consumo relacionadas com experiências, bem-estar, desenvolvimento pessoal e produtos que simplifiquem o quotidiano.
O relatório identifica também uma crescente valorização do presente. Segundo a Ipsos, 62% dos participantes concorda que o importante é aproveitar a vida hoje, deixando as preocupações de amanhã para o futuro. A consultora interpreta esta atitude como uma possível resposta à perceção de que os objetivos de longo prazo se tornaram mais difíceis de alcançar.
Para o retalho e as marcas, esta evolução pode criar oportunidades relacionadas com experiências acessíveis, pequenos momentos de recompensa e produtos associados ao bem-estar.
Contudo, não significa necessariamente que todos os consumidores estejam a gastar mais ou a abandonar a poupança. A valorização do presente pode coexistir com comportamentos prudentes e com maior controlo das despesas.
Outra transformação identificada pela Ipsos está relacionada com as expectativas ambientais. A preocupação com as alterações climáticas continua elevada, mas o estudo sugere que os consumidores estão a valorizar cada vez mais soluções práticas de adaptação.
Em vez de depender exclusivamente de compromissos de longo prazo, as empresas poderão ter de demonstrar benefícios concretos, como a redução do desperdício, a melhoria da eficiência energética ou a proteção dos recursos naturais.
A Ipsos considera que a comunicação da sustentabilidade está a evoluir de uma linguagem centrada no sacrifício para propostas associadas à melhoria da qualidade de vida. Para a indústria e a distribuição alimentar, esta orientação pode traduzir-se em maior interesse por soluções que conciliem benefícios ambientais, conveniência e acessibilidade económica.
A inteligência artificial constitui outro dos fatores de transformação. Embora 56% dos participantes considere que a IA tem um impacto positivo no mundo, o relatório identifica sinais de perda de entusiasmo entre consumidores mais jovens.
A Ipsos considera que a confiança na tecnologia dependerá cada vez mais da capacidade de demonstrar benefícios concretos e preservar a autonomia individual.
No retalho, esta evolução poderá influenciar a aceitação de recomendações automatizadas, ferramentas de personalização e serviços digitais. As empresas terão de encontrar um equilíbrio entre eficiência tecnológica e proximidade humana.
A valorização de marcas conhecidas está também relacionada com outra tendência identificada no estudo: a procura de familiaridade e referências do passado. Segundo a Ipsos, 62% dos participantes gostaria que o respetivo país voltasse a ser como era anteriormente. Contudo, apenas 48% afirma que gostaria de ter crescido na época em que os seus pais eram crianças.
A diferença sugere que a nostalgia nem sempre corresponde a um desejo literal de regressar ao passado. Pode representar antes a procura de segurança, estabilidade e referências reconhecíveis num mundo em rápida transformação.
Para as marcas, esta tendência cria oportunidades de recuperar elementos históricos da sua identidade e combiná-los com inovação.
O “Ipsos Global Trends 2026” apresenta um consumidor que procura equilibrar necessidades aparentemente contraditórias. Quer inovação, mas também confiança. Valoriza a sustentabilidade, mas procura soluções práticas. Mantém ambições de longo prazo, mas procura satisfação no presente. Reconhece os benefícios da tecnologia, mas quer preservar o controlo sobre as decisões.
Para a indústria de grande consumo e para o retalho, estas tensões tornam mais complexa a definição das estratégias comerciais. A capacidade de oferecer produtos diferenciados, comunicar valor de forma clara e desenvolver relações de confiança poderá assumir maior importância.
Contudo, os resultados também mostram que não existe um consumidor global uniforme. As diferenças entre mercados, gerações e contextos económicos exigem abordagens segmentadas e uma leitura cuidadosa dos indicadores.
A principal transformação identificada pela Ipsos poderá ser esta: num mundo considerado cada vez menos previsível, os consumidores procuram marcas, produtos e serviços que lhes permitam recuperar alguma capacidade de escolha e controlo sobre o quotidiano.
Fonte: Grande Consumo