28 de Agosto de 2026
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FAO defende maior peso da horticultura em dietas saudáveis e sistemas alimentares sustentáveis
2026-08-27
Qualfood

A agricultura deve dar maior prioridade à produção de alimentos diversificados e nutritivos, além de garantir volumes suficientes para abastecer a população, defendeu Qu Dongyu, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no Congresso Internacional de Horticultura de 2026, em Quioto.

Segundo o responsável, frutas, vegetais e outras culturas hortícolas têm um papel relevante em dietas saudáveis, na biodiversidade, na resiliência climática e nos meios de subsistência.

“O sucesso não pode mais ser medido simplesmente pela quantidade de alimentos que produzimos. Ele também deve ser medido pela capacidade da agricultura de fornecer os alimentos que as sociedades saudáveis necessitam e pela disponibilidade, acessibilidade e preços acessíveis a todos”, afirmou Qu Dongyu.

Entre 2010 e 2024, a produção de frutas e vegetais cresceu mais rapidamente do que a de cereais. A horticultura representa atualmente quase um quarto do valor da produção agrícola global, cerca de 1,4 biliões de dólares.

As exportações do setor cresceram cerca de 2,6% ao ano nesse período, atingindo 175 milhões de toneladas, no valor de 240 mil milhões de dólares, em 2024.

Apesar deste desempenho económico, o diretor-geral da FAO sublinhou que esse crescimento não se traduziu em dietas mais saudáveis.

Produção insuficiente para cumprir recomendações

Qu Dongyu identificou três desafios para desbloquear o potencial nutricional da horticultura: produtividade, disponibilidade e acessibilidade.

Segundo a FAO, a produtividade das culturas hortícolas cresceu menos de 1% ao ano, ficando atrás da de outros cereais, num contexto de subinvestimento em investigação, genética e infraestrutura.

Em termos de disponibilidade, a análise mais recente da FAO mostra que, em 2023, apenas cerca de metade dos países produzia frutas e vegetais suficientes para atingir a recomendação conjunta da FAO e da OMS de 400 gramas por pessoa por dia.

O consumo médio global situa-se abaixo desse valor, estimado em 80 gramas de fruta e 190 gramas de vegetais por pessoa por dia.

No acesso económico, a FAO aponta para uma subida dos preços ao produtor entre 2016 e 2025 em 89% dos países no caso da fruta e em 93% dos países no caso dos vegetais. Os aumentos médios anuais foram de cerca de 4,2% e 4,7%, respetivamente.

As projeções indicam que, até 2050, menos de um terço dos países da África Subsaariana terá oferta suficiente de frutas e vegetais para cumprir a recomendação conjunta da FAO e da OMS.

Investimento em sementes, rega e pós-colheita

Perante recursos hídricos e terrestres cada vez mais limitados, e com maior pressão associada às alterações climáticas, Qu Dongyu defendeu investimento em sementes e materiais de plantação melhorados, solos mais saudáveis, rega eficiente, mecanização e tecnologias digitais.

O diretor-geral da FAO apontou ainda a necessidade de reforçar os serviços de extensão rural, os sistemas pós-colheita e a ligação entre produtores e mercados.

“O crescimento futuro terá de vir cada vez mais da produção de mais recursos com menos recursos”, afirmou.

Qu Dongyu considerou que o progresso no setor exigirá transformação, e não apenas expansão, colocando os agricultores no centro das decisões.

“Nenhuma inovação, política ou investimento terá sucesso sem o conhecimento, a confiança e a participação dos agricultores. O trabalho de cientistas e investigadores precisa ser reconhecido pelos agricultores”, afirmou.

Pequenos produtores têm peso central

A FAO destaca que a inteligência artificial (IA), a edição genómica e as ferramentas digitais estão a acelerar o melhoramento genético e a reduzir perdas pós-colheita.

Qu Dongyu citou o trabalho do Centro Conjunto FAO/IAEA de Técnicas Nucleares na Alimentação e Agricultura sobre melhoramento por mutação, que contribuiu para o lançamento oficial de mais de 3450 variedades de culturas em mais de 70 espécies de plantas, incluindo frutas e vegetais.

O responsável defendeu que a inovação deve ser acessível, economicamente viável e passível de adoção, em particular pelos pequenos produtores.

As explorações agrícolas com 20 hectares ou menos são responsáveis por mais de metade da produção mundial de frutas e vegetais. Na Ásia e na África Subsaariana, esse peso ultrapassa 80%.

Qu Dongyu apelou ainda aos governos para apoiarem o setor através de investigação, sistemas de sementes, infraestrutura, política comercial e mercados que recompensem a qualidade e o valor nutricional.

Tradição e inovação

O diretor-geral da FAO defendeu também que o futuro da horticultura deve ter em conta o conhecimento tradicional acumulado ao longo de gerações.

Quase metade dos 104 sistemas reconhecidos pela FAO como Património Agrícola de Importância Global envolve a horticultura, incluindo pomares de jujuba no condado de Jia, na China, palmeiras e olivais no oásis de Siwa, no Egito, e sistemas de cultivo em terraços nos Andes peruanos.

Durante uma sessão de perguntas e respostas, Qu Dongyu destacou a aplicação de tecnologias avançadas como forma de desbloquear o potencial de culturas e métodos de produção tradicionais. Sublinhou também a necessidade de orientar os consumidores para novos padrões de consumo e para a redução do desperdício alimentar.

Fonte: Vida Rural

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