Num momento em que o sector agro-alimentar português enfrenta desafios em várias frentes, o azeite e o vinho destacam-se como duas das suas peças mais valiosas, mas também mais expostas.
São fileiras que valem milhares de milhões de euros, sustentam dezenas de milhares de empregos e ajudam a equilibrar a balança comercial do País, mas que operam hoje num contexto cada vez mais instável: custos de produção em alta, cadeias logísticas sob tensão, concorrência global feroz e consumidores mais exigentes e voláteis.
Entre a necessidade de crescer lá fora e a pressão para resistir cá dentro, azeite e vinho entram num ciclo em que já não basta produzir bem – é preciso competir melhor, mais depressa e com mais valor.
Fileiras-Chave
O azeite e o vinho afirmam-se como duas das fileiras mais estratégicas do agro-alimentar em Portugal, combinando escala económica, forte vocação exportadora e crescente sofisticação tecnológica. Em conjunto, representam milhares de milhões de euros em impacto directo e indirecto na economia nacional e contributos decisivos para o PIB, o emprego e a balança comercial, num contexto em que a competitividade internacional e a adaptação às novas exigências climáticas e de consumo se tornaram factores críticos.
No caso do azeite, o sector atinge cerca de 700 milhões de euros de valor e continua a destacar-se pela elevada qualidade do produto nacional – com mais de 90% classificado como extra virgem – e por um perfil exportador, permitindo manter um excedente comercial positivo mesmo num contexto global exigente, de acordo com os dados mais recentes do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL).
O sector do vinho reforça, por sua vez, o seu peso estrutural com um impacto económico estimado em cerca de 10 mil milhões de euros e 2,68% do PIB, suportado por aproximadamente 43 mil empregos directos e cerca de 169 mil postos de trabalho em toda a fileira.
Os dados da ViniPortugal revelam que, apesar de uma quebra de 14% na produção em 2025, para cerca de 5,9 milhões de hectolitros, e de um contexto europeu marcado por excedentes de stock, as exportações mantêm resiliência, atingindo 887 milhões de euros até Novembro. Paralelamente, Portugal destaca-se pelo maior consumo per capita de vinho, reforçando a singularidade de um mercado onde tradição, identidade territorial e reconfiguração do consumo continuam a coexistir com pressão competitiva e necessidade de valorização dos vinhos DOP e IGP.
Pressão e resposta
Num contexto de forte instabilidade nos mercados internacionais, marcado pela subida dos custos da energia, da logística e das matérias-primas, as duas fileiras enfrentam uma pressão acrescida sobre a estrutura de custos e a previsibilidade da actividade. Ainda assim, a resposta dos sectores passa por estratégias distintas de adaptação, que combinam eficiência operacional, reorganização das cadeias de valor e ajustamentos comerciais.
O CEO da Sovena, dona do azeite Oliveira da Serra e óleo Fula, Jorge de Melo, sublinha que «a actual conjuntura internacional tem vindo a pressionar de forma significativa o sector agrícola português como um todo. O aumento dos custos dos factores de produção, com especial destaque para os fertilizantes, a energia e os combustíveis, tem impacto directo na estrutura de custos das explorações agrícolas e na competitividade do produto final». O responsável acrescenta ainda que a instabilidade geopolítica agrava este cenário, referindo que «a esta realidade acresce a incerteza quanto à disponibilidade de matérias fertilizantes, num contexto global marcado por tensões geopolíticas e disrupções nas cadeias de abastecimento», destacando o impacto de corredores logísticos críticos como o Estreito de Ormuz. Em ter-mos operacionais, alerta que «em regiões agrícolas relevantes, como a área de influência do Alqueva, estes constrangimentos têm sido visíveis, com atrasos na plantação de culturas e menor intensidade de trabalhos agrícolas».
Já na fileira do vinho, o aumento dos custos surge como mais uma camada de pressão num sector já exposto a desafios estruturais e conjunturais. Segundo a directora executiva da ACIBEV – Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal, Ana Isabel Alves, parte destes aumentos terá de ser absorvida ao longo da cadeia de valor, enquanto outra parte se reflectirá no preço, com impacto potencial na procura, em Portugal e nos mercados externos. A responsável aponta ainda a incerteza geopolítica como um factor adicional de risco, defendendo a necessidade de maior estabilidade para proteger o consumo e as exportações.
O administrador executivo da Sogrape, Miguel Pessanha, refere que «o sector do vinho atravessa uma conjuntura particularmente exigente, marcada por custos operacionais elevados, desde matérias-primas à logística, que pressionam directamente a competitividade das empresas nacionais». O responsável acrescenta que «a instabilidade internacional tem aumentado a volatilidade dos mercados, com impactos claros nos custos logísticos e nos factores de produção, como a energia e as matérias-primas». Para mitigar estes efeitos, defende ainda que «é essencial simplificar o enquadramento regulamentar e reduzir os custos de contexto, criando condições para que o vinho português seja mais competitivo nos mercados globais. Em paralelo, a viticultura nacional deve continuar a investir em modernização e produtividade, condição indispensável para garantir rentabilidade e eficiência num sector cada vez mais global e exigente».
Os mercados internacionais continuam a desempenhar um papel central na estratégia de crescimento das fileiras portuguesas do azeite e do vinho. Diferentes geografias assumem um peso crescente, em função das dinâmicas de consumo, dos acordos comerciais e da evolução da procura global.
No plano internacional, a ACIBEV identifica um conjunto de mercados prioritários que combinam maturidade e potencial de expansão para o sector do vinho nacional. Ana Isabel Alves destaca o Brasil como uma das principais oportunidades associadas a um eventual acordo com o Mercosul, sublinhando que a abertura comercial poderá impulsionar significativamente o negócio, ainda que as estratégias variem consoante o posicionamento de cada empresa. Os EUA mantêm-se igualmente como um mercado-chave, apesar dos desafios, sendo apontados como um mercado onde os vinhos portugueses ainda têm margem para aumentar a quota de mercado. A Europa de Leste surge também como uma região a acompanhar, pela crescente procura e diversificação do consumo.
No azeite, a estratégia de internacionalização assenta numa combinação entre consolidação de mercados já estabelecidos e aposta em geografias emergentes de grande escala. Para o gestor da OLIVUM, mercados como Brasil, Espanha, Itália e EUA continuam a revelar potencial de crescimento sustentado, enquanto mercados como a Índia representam uma oportunidade estratégica particularmente relevante, sobretudo no contexto do acordo União Europeia–Índia, que deverá reduzir barreiras tarifárias e aumentar a competitividade do azeite europeu. O Mercosul é igualmente apontado como um espaço a acompanhar de perto, pela possibilidade de reforço das exportações num bloco económico alargado.
A estratégia passa, segundo o responsável, por reforçar a promoção e valorização do azeite português, apostando na notoriedade, qualidade e diferenciação, mas também numa abordagem mais coordenada da fileira. Nesse sentido, defende a importância de uma estrutura interprofissional forte e representativa, capaz de agregar o sector e potenciar a promoção externa de forma mais eficaz. Paralelamente, destaca o papel crescente da certificação de sustentabilidade como factor diferenciador nos mercados internacionais, num contexto em que consumidores e retalhistas valorizam práticas ambientalmente responsáveis.
Competição mundial
No vinho, a Sogrape aponta um conjunto de riscos que combina desafios regulatórios, geopolíticos e de transformação do consumo. Miguel Pessanha sublinha que «Portugal enfrenta riscos transversais, como a crescente pressão regulatória sobre o sector das bebidas alcoólicas, a instabilidade geopolítica e as mudanças significativas nos hábitos de consumo», acrescentando que se observa «uma tendência global de redução do consumo em volume, mas com uma procura crescente por maior qualidade (premiumização)». A estes factores somam-se «movimentos restritivos, barreiras comerciais e políticas anti-álcool», num enquadramento que obriga o sector a reforçar marcas e diferenciação.
Já no azeite, a pressão competitiva assume uma leitura mais estrutural, centrada na desigual capacidade de resposta dos produtores. Jorge de Melo alerta que «a conjugação de custos de produção elevados com uma eventual quebra de volumes poderá fragilizar a capacidade competitiva dos produtores portugueses, em particular nos mercados mais sensíveis ao preço». Ainda assim, sublinha que o impacto não é uniforme, explicando que «explorações com uma gestão mais avançada e precisa, suportada por tecnologia e planeamento, conseguem mitigar parte destes riscos através de uma aplicação mais eficiente dos factores de produção», enquanto outras, com menos recursos, enfrentam maiores dificuldades de adaptação.
Em ambos os sectores, o factor comum é claro: a competitividade já não depende apenas da qualidade do produto, mas da capacidade de escala, eficiência e sofisticação na resposta a um mercado internacional cada vez mais exigente.
Políticas públicas: Ajudam?
A redução dos custos operacionais surge como prioridade imediata, sobretudo no sector agrícola. No azeite, o CEO da Sovena defende que «é fundamental a existência de políticas públicas que ajudem a mitigar o impacto dos custos de produção e a garantir condições de estabilidade aos agricultores», destacando o papel de medidas como o apoio aos custos da energia e dos combustíveis, em particular do gasóleo agrícola. O responsável sublinha ainda que mecanismos de apoio aos fertilizantes – seja através de incentivos directos ou de maior previsibilidade no abastecimento – são essenciais para evitar rupturas na produção e garantir eficiência nas explorações.
Num plano mais estrutural, o foco desloca-se para o investimento e a competitividade fiscal, onde o vinho assume uma leitura mais marcada. O administrador executivo da Sogrape defende «um enquadramento favorável ao investimento, reduzindo os custos fiscais que penalizam o negócio, nomeadamente através da diminuição da derrama estadual, do IRC e da simplificação do sistema fiscal». O responsável acrescenta que o reforço de instrumentos como o VITIS, o estímulo à inovação, à digitalização e à I&D, é determinante para aumentar produtividade e rentabilidade no sector.
Já na vertente de organização e regulação do mercado, a preocupação passa pela forma como o sector se posiciona externamente e se protege internamente. Nesse sentido, são apontadas propostas como a canalização integral das taxas do IVV e do IVDP para promoção e fiscalização, a criação de um Observatório do Vinho e de um maior controlo do vinho importado, medidas que visam equilibrar o mercado e reforçar a presença internacional do vinho português. No conjunto, a leitura das associações e empresas aponta para uma conclusão: mais do que apoios pontuais, exige-se uma política económica coerente e integrada, capaz de actuar sobre custos, investimento e posicionamento externo.
Exportar não chega
A internacionalização das fileiras do azeite e do vinho entra numa nova fase, em que o foco deixa de ser apenas o crescimento em volume para se centrar na criação de valor, diferenciação e consolidação de marca nos mercados internacionais. Nos próximos cinco anos, a grande questão já não é apenas onde vender mais, mas como posicionar melhor Portugal num mercado global cada vez mais competitivo e fragmentado.
A primeira oportunidade é a diversificação de mercados e o reforço da presença em geografias com elevado potencial de crescimento. No azeite, destaca-se a aposta em mercados já consolidados como Espanha, Brasil, Itália, França e EUA, bem como a entrada em destinos como a Índia e o Mercosul. No vinho, a estratégia segue uma lógica semelhante, com especial enfoque no reforço da internacionalização através de programas de promoção estruturados, capazes de sustentar a presença em mercados maduros e emergentes.
Um segundo eixo prende-se com a valorização do produto e a sofisticação da oferta. No azeite, isso traduz-se na associação a atributos como sustentabilidade, rastreabilidade, inovação e qualidade, numa lógica em que «internacionalizar não é apenas exportar mais; é valorizar melhor», como sublinha Gonçalo Moreira, da OLIVUM. Já no vinho, a aposta alarga-se a novos segmentos de consumo, como os produtos NO/LOW e aromatizados, acompanhando a evolução dos hábitos globais e a procura por alternativas mais diversificadas.
Finalmente, ganha peso a experiência e a ligação ao território como factor de competitividade. Tanto o olivoturismo como o enoturismo surgem como ferramentas para reforçar a percepção de valor, aproximar consumidores e criar novas formas de consumo. O sector do vinho destaca ainda o papel do enoturismo e das experiências associadas como extensão natural da marca, enquanto o azeite aposta na literacia do consumidor como forma de educar o mercado e consolidar valor.
Em comum, as duas fileiras convergem na mesma exigência: uma internacionalização mais sofisticada, suportada por promoção coordenada, inovação e instrumentos públicos capazes de transformar escala produtiva em reconhecimento global.
Fonte: Executive Digest