06 de Julho de 2026
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Insetos e microalgas podem reduzir a pegada ecológica da carne de frango
2026-07-06
Qualfood

Quando compramos carne de frango produzida em Portugal, não imaginamos que grande parte da alimentação das aves deriva de soja cultivada do outro lado do Atlântico, viajando milhares de quilómetros até chegar aos nossos aviários.

A União Europeia importa 97% do bagaço de soja que usa na alimentação animal e, tal como grande parte do mundo, depende de três países – Brasil, Argentina e Estados Unidos – para se abastecer desta matéria-prima de importância primordial na produção de carne.

"Não há muitas alternativas. O bagaço de soja é um alimento quase perfeito. O seu teor de proteína e composição em aminoácidos essenciais, nomeadamente a lisina, garante o crescimento ideal dos animais, não podendo, portanto, ser substituído na totalidade. Há vários anos que investigamos matérias-primas alternativas ao bagaço de soja e conseguimos incorporar até um máximo 20% nos alimentos para animais com resultados aceitáveis", explica André  Martinho de Almeida, investigador do LEAF - Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food Research Centre do ISA (Instituto Superior de Agronomia).

 

A microalga Spirulina, de elevado valor proteico, pode ser uma alternativa promissora na alimentação dos frangos e tem a vantagem de poder vir a ser produzida localmente, em ambiente industrial, sem ocupar mais terra arável e sem contribuir para a desflorestação. Em concreto, os cientistas do LEAF-ISA estudam a incorporação de Spirulina como matéria-prima alternativa na alimentação de frangos em ambientes quentes, nomeadamente, em países tropicais.

Frangos de pescoço pelado como modelo de estudo

"No âmbito do projeto Trop-Plumage conseguimos demonstrar que os frangos de crescimento lento com o gene pescoço pelado, habitualmente designado por Naked Neck (Na), conseguem aproveitar melhor os alimentos com a inclusão de 15% de Spirulina e crescem muito melhor em situações de stress térmico, à temperatura de 30 ºC, do que as estirpes de frangos de pescoço coberto e produzidas tradicionalmente em países de clima temperado", refere André Almeida.

O objetivo dos cientistas é contribuir para uma produção mais eficiente, barata e ecológica de carne de frango em regiões tropicais e semitropicais, onde habita 65% da população mundial, a maioria em países em desenvolvimento.

Além do desempenho zootécnico, os investigadores do LEAF analisaram a qualidade da carcaça e da carne, medindo o impacto das dietas na expressão diferencial de genes do intestino delgado, do fígado e dos músculos dos frangos e verificaram que os animas possuíam mecanismos de adaptação digestiva a este tipo de dieta.

Por outro lado, concluíram que as emissões dos excretas são mais elevadas com dietas que incluem Spirulina, por esta microalga ser mais difícil de digerir pelos frangos.

Spirulina ainda não é produzida em grande escala, nem a preços acessíveis, para ser usada ainda de forma comercial na alimentação animal, mas promete ser uma opção futura.

Chlorella vulgaris é outra das microalgas estudadas no grupo de Engenharia Zootécnica, desta feita na alimentação de galinhas poedeiras, tendo alguns ensaios sido realizados em aviários comerciais. A chlorela é altamente valorizada como suplemento alimentar, pelo elevado teor de proteína, entre outros componentes benéficos.

Insetos como alternativa proteica emergente

As farinhas de inseto produzidas localmente, usando coprodutos vegetais da alimentação humana, são outra das alternativas em estudo ao uso de bagaço de soja nos alimentos compostos para animais. O ISA participa no consórcio do projeto CriCri – CRIação de insetos para a Circularidade, Recuperação e Inovação na cadeia agroalimentar. Neste âmbito, tem vindo a estudar o uso de farinha de grilo para melhorar a performance zootécnica e nutricional na criação de frangos.

"Já fizemos três ensaios, comparando o desempenho de frangos alimentados com uma percentagem de farinha de grilo com o desempenho dos animais alimentados com dietas de controlo e com dietas de controlo suplementadas com farinha de larva de mosca-soldado-negra. Concluímos que do ponto de vista técnico, a farinha de grilo é uma matéria-prima viável para a utilização avícola e que os animais têm inclusivamente performances produtivas comparáveis às dos animais produzidos com alimentos convencionais”, afirma André Almeida.

"Todas as medidas que consigamos aplicar para reduzir a incorporação de bagaço de soja nos alimentos compostos para animais serão medidas positivas", conclui o investigador.

O frango é, depois do porco, a proteína animal mais consumida a nível global. Em 2025, 42% das rações produzidas à escala mundial destinaram-se à alimentação de frangos e galinhas poedeiras, atingindo 580,4 milhões de toneladas.

Fonte: ISA

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