Pela primeira vez em quase trinta anos, a União Europeia autorizou um novo ingrediente alimentar à base de fungos. Aprovado ao abrigo do rigoroso regulamento de “Novos Alimentos”, o Fermotein promete reforçar o mercado de proteínas sustentáveis. O caso, que envolveu um processo de avaliação de seis anos, ilustra tanto o elevado padrão de segurança europeu como a oportunidade de otimizar os processos de inovação no bloco.
O que é o Fermotein?
Desenvolvido pela startup neerlandesa The Protein Brewery, o Fermotein é uma micoproteína produzida através da fermentação de biomassa. A inovação reside na utilização de uma espécie específica de fungo filamentoso (o R. pusillus). Embora este fungo já fosse aplicado na produção de enzimas para o fabrico de queijos, esta é a primeira vez que é utilizado como ingrediente principal num alimento.
O resultado é um produto de alto valor nutricional, rico em proteínas completas e fibra alimentar, além de conter diversas vitaminas e minerais. No contexto europeu, o ingrediente foi desenhado para enriquecer o perfil de laticínios vegetais, ser incorporado em farinhas para panificação e servir de base para a nutrição desportiva personalizada.
Além das vantagens nutricionais, o impacto ambiental do novo ingrediente é reduzido. Segundo um estudo realizado pela Universidade de Wageningen, a produção do Fermotein requer entre 5 a 30 vezes menos água e 5 a 20 vezes menos terra por quilo de proteína do que os laticínios convencionais.
Esta aprovação surge num momento em que a União Europeia procura fortalecer a economia do seu setor agroalimentar. Atualmente, a Europa importa 66% dos alimentos de alto teor proteico para animais. Face à instabilidade nas cadeias de abastecimento globais e às alterações climáticas, a diversificação de fonte surge como uma ferramenta estratégica. Projeções da consultora Systemiq indicam que, com o enquadramento adequado, as proteínas alternativas poderão injetar 111 mil milhões de euros por ano na economia da UE até 2040, apoiando mais de 414 mil postos de trabalho.
O desafio do tempo de resposta regulatório
Apesar do marco histórico, a transição para o mercado europeu continua a ser um processo de longo prazo. O percurso do Fermotein demorou seis anos desde a submissão inicial em 2020, um prazo superior ao de outros mercados como os Estados Unidos e Singapura, por exemplo.
O setor da biotecnologia alimentar aponta que, embora o rigor da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) seja uma garantia essencial de segurança para os consumidores, existe uma margem significativa para aumentar a eficiência. Prazos mais previsíveis são vistos como um fator fundamental para atrair investimentos a longo prazo.
Especialista e reguladores concordam que o objetivo é melhorar a agilidade dos processos sem comprometer as exigências científicas. Para esse equilíbrio, tem sido propostas as seguintes medidas de cooperação: guias de orientação atualizados, diálogo científico prévio e espaços de experimentação regulatória.
A chegada do Fermotein valida a capacidade de inovação da UE e demonstra o potencial de regulamento dos “Novos Alimentos”. O próximo passo reside em dotar o sistema das ferramentas necessárias para que as futuras soluções sustentáveis possam ser integradas no mercado ao ritmo exigido pelas metas ambientais e económicas do bloco.
Fonte: TecnoAlimentar