31 de Julho de 2026
Test-Drive
Test-drive
Experimente grátis!
Notícias
Newsletter
Notícias
Agricultura e Biodiversidade: Como as práticas regenerativas podem reforçar essa relação vital
2026-07-31
Qualfood

A agricultura é dos setores mais expostos às crises planetárias, como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade, pela sua alta dependência da saúde e bom funcionamento dos ecossistemas. Para ser sustentável num planeta em mudança, tem de se adaptar e as práticas regenerativas podem ser parte da solução.

É um grande paradoxo que o setor que mais depende da biodiversidade, a agricultura, seja também a maior ameaça aos ecossistemas mais frágeis do mundo”. Esta frase foi usada pelo Banco Mundial aquando da divulgação de um relatório em dezembro de 2025, no qual os especialistas concluem que, nesta altura, o mais premente não é apenas reduzir os impactos da agricultura na biodiversidade, mas sim colocar a biodiversidade no centro de todas as políticas e investimentos agrícolas.

A agricultura é uma das atividades mais antigas da história humana, pensando-se que terá emergido algures há 10.000 ou 12.000 anos. Foi um marco incontornável na jornada da nossa espécie na Terra, alterando profundamente a organização das sociedades e a nossa relação com o mundo natural que nos rodeia, permitindo a transição do nomadismo para modos de vida sedentários e geograficamente mais estáveis e com maior previsibilidade no que toca à obtenção de alimento.

Mas a agricultura não mudou só a nossa história, transformando indelevelmente também a de muitos outros seres que partilham connosco o planeta, a de inúmeras paisagens e habitats e, no final de contas, a da própria Terra. Avanços tecnológicos revolucionaram a agricultura de subsistência, a de pequena escala e a de menores impactos no ambiente. Com a ajuda de máquinas e de produtos químicos sintéticos, os humanos transformaram não só a agricultura e a produção de alimentos, mas também o mundo.

Atualmente, a expansão da agricultura, muito impulsionada pelas forças de um mercado global ainda fortemente assente na lógica capitalista e na abordagem extrativista, é apontada como uma das grandes ameaças à diversidade de formas de vida que distingue o nosso planeta. Várias espécies de animais e plantas têm na agricultura, no seu alargamento e na sua intensificação, o maior perigo que a sua sobrevivência enfrenta.

Numa altura em que a perda de biodiversidade é classificada como uma das crises planetárias, e que as previsões de aumento da população mundial deixam antever maiores necessidades de alimento, alinhar a agricultura com os objetivos de conservação e revitalização da Natureza é fundamental, para o futuro de ambas.

Uma relação íntima e nem sempre fácil

Pensar na agricultura sem pensar na biodiversidade é o mesmo que pensar na pesca sem pensar no mar. 

A agricultura está altamente dependente da saúde e do funcionamento dos solos nos quais criam raízes as plantas – que dão frutos, cereais, fibras, alimento para nós e para outros animais. Sem solos saudáveis, livres de tóxicos, sustentados por comunidades diversas de microrganismos que reciclam matéria orgânica e nutrem o solo e por teias ecológicas dinâmicas, sustentáveis e resilientes, a produção agrícola ver-se-á fortemente limitada, mesmo com toda a tecnologia e químicos que possam ser usados para tentar, muitas vezes em vão, contornar a desvitalização progressiva do solo.

Mas a relação entre a agricultura e a biodiversidade vai mais além. Os insetos e outros invertebrados são fundamentais nessa relação, servindo como guardiões naturais das plantas (ainda que nem todos, claro) contra outros organismos que as fragilizam e destroem. Esses e outros animais levam consigo os grãos de pólen de umas plantas para as outras, as sementes de um local para o outro, ajudando a manter a diversidade genética das culturas e a aumentar a sua resiliência face a acontecimentos potencialmente devastadores, como doenças ou pragas. Estima-se que cerca de 80% das culturas em todo o mundo dependam de alguma forma da polinização feita por insetos, como as abelhas, borboletas e sirfídeos, e por outros animais.

A juntar a tudo isso, ecossistemas saudáveis e diversos contribuem para a formação, proteção e descontaminação dos solos e dos sedimentos e para a qualidade e quantidade de água doce disponível, um recurso precioso e a rarear.

Todos esses serviços de ecossistema, como são conhecidos na gíria científica e até já cada vez mais em discursos públicos, como dos políticos, são fundamentais para que a agricultura seja produtiva e possa lidar com alterações ambientais que, sem eles, poderiam ser desastrosas.

O Banco Mundial calcula que as paisagens com uma porção de entre 20% e 25% de habitats naturais fornecem melhores serviços de ecossistema, e que abaixo dos 10% alguns desses serviços desaparecem por completo. Atualmente, entre 18% e 33% das zonas agrícolas a nível mundial não têm áreas de habitats naturais em suficiente dimensão e com a devida estrutura e funcionamento para, por exemplo, promover a polinização selvagem e o controlo natural de pragas.

Os impactos da agricultura na biodiversidade são significativos. A produção de alimentos é considerada a principal causa da perda de biodiversidade a nível global, seja através da sua intensificação, seja por via da sua expansão que resulta na destruição de habitats naturais.

Um relatório de 2021, da Chatham House com o apoio do Programa Ambiental das Nações Unidas, com o título “Food System Impacts on Biodiversity Loss”, apontava que a agricultura é identificada como uma ameaça a 24.000 de 28.000 espécies ameaçadas de extinção. E agricultura é também apontada como o maior consumidor de água (cerca de 70% do uso global) e uma fonte de emissões de gases com efeito de estufa (através da conversão de habitats naturais em áreas agrícolas, das emissões na produção e operações), que agravam a crise climática, dessa forma afetando, indiretamente, a biodiversidade com a redução das áreas favoráveis a muitas espécies não-humanas.

Apesar desta relação conturbada, a agricultura é um dos principais beneficiários das diversidades biológica e ecológica e um dos principais interessados na sua proteção, conservação e recuperação, pois delas depende a sustentabilidade e rentabilidade da sua produção. Nesse sentido, e apesar de ao longo da História recente, especialmente no último par de séculos com uma explosão demográfica humana e com a revolução tecnológica e industrial, a agricultura ter mais combatido a Natureza do que trabalhado ao lado dela, hoje percebe-se que é preciso juntar forças para que ambas possam prosperar. E um novo caminho de sinergia começa a desenhar-se.

Um alinhamento possível, mas ainda não totalmente concretizado

A agricultura pode (e poderia argumentar-se que deve) alinhar-se com os objetivos da conservação e restauro da biodiversidade. Além de ser um dos principais beneficiários de uma Natureza saudável e funcional, o facto de ter impactos significativos e diretos sobre ela significa que é parte indispensável da solução.

João Roseiro, Diretor Agronómico para a Europa na SLM Partners, diz que é “inevitável” questionar se e como a agricultura pode alinhar-se com a conservação e restauro ecológico “num mundo marcado pelo crescimento populacional atual, pelas alterações climáticas e pela degradação dos ecossistemas”.

Para o agrónomo, esse alinhamento “é possível, mas não é automático”, pois tudo depende do modelo agrícola adotado, da escala e do contexto ecológico em que a produção é feita. Sistemas agrícolas mais diversificados, que estejam integrados na paisagem, e não separados dela, e que se articulem com as dinâmicas ecológicas dos ecossistemas onde estão inseridos, “podem desempenhar um papel relevante na conservação da natureza, sobretudo em regiões onde a agricultura já domina o território”, diz João Roseiro.

A ideia de que tudo depende das práticas é ecoada por Ricardo Vieira Santos. O engenheiro agrónomo, e investigador nos institutos MED e CHANGE da Universidade de Évora, diz-nos que os contributos que o setor da produção alimentar poderá dar à conservação da biodiversidade dependem da forma como se faz agricultura.

Para que isso seja conseguido, é preciso equilibrar a produção com a salvaguarda dos serviços de ecossistema. Se o foco incidir desproporcionadamente na produção e desvalorizar a dimensão ecológica, então voltamos a uma visão extrativista da agricultura, em que o que se quer é tirar o máximo possível da terra sem preocupação em reduzir ou remediar os danos causados.

Um caminho que vai sendo feito

Em Portugal, a agricultura tem procurado tornar-se mais sustentável e reduzir os seus impactos negativos nos ecossistemas dos quais depende, como usar a água e o solo de forma mais eficiente e recorrer menos a químicos tóxicos, tentando, ao mesmo tempo, que isso não resulte em quebras na produção e na rentabilidade do setor. Um equilíbrio nem sempre fácil nem isento de solavancos ou trambolhões, mas, ainda assim, possível.

Diz David Fangueiro, professor no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e coordenador do centro de investigação LEAF – Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, que “o nosso setor agrícola está cada vez mais alinhado com as estratégias de conservação e restauro”.

Destacando o papel das associações e organizações de produtores na sensibilização dos agricultores para essas questões, o investigador afirma que “há uma vontade de melhorar os solos para os tornar mais produtivos”, a par de “uma grande preocupação em deixar para as próximas gerações solos que sejam, pelo menos, tão bons como os que receberam”.

Contudo, essa transição, que não é apenas de formas de fazer, mas também de formas de pensar e de relação com o ambiente envolvente, não é um movimento contínuo e fluido. Refere David Fangueiro que existem “diferentes realidades e nem todos os agricultores têm ainda essa consciência”.

Algo semelhante é-nos dito por João Roseiro, que detalha que a agricultura em Portugal “não segue um modelo único”. Por cá, “coexistem sistemas ainda marcadamente extrativistas”, que dependem muito de inputs externos, como adubos e químicos sintéticos, e que fazem uma grande pressão sobre os solos e a água, e “outros modelos mais integrados”, tais como os sistemas agroflorestais, explorações em transição ecológica ou “projetos que incorporam práticas de conservação do solo e promoção ativa da biodiversidade”.

Para o agrónomo da SLM Partners, essa “pluralidade” é reflexo de “uma transição em curso, ainda incompleta e desigual” que é impulsionada por “políticas europeias, exigências de mercado e uma crescente consciencialização ambiental”. Contudo, diz que esse caminho continua a ser limitado por “constrangimentos económicos, técnicos e institucionais”.

A conservação da biodiversidade já entrou nos discursos políticos e nas estratégias, tanto a nível europeu como nacional, mas continua a haver “incoerências” na articulação das políticas de vários setores que limitam a eficácia das medidas no terreno, aponta João Roseiro.

Reconhecendo que a agricultura em Portugal não anda toda à mesma velocidade no que toca à relação com a Natureza, Ricardo Vieira Santos diz que a importância da articulação entre a produção e a conservação deveria chegar a mais agricultores. Mas para isso é preciso dar a conhecer práticas emergentes que permitam “ultrapassar os desafios da atualidade” e que conjuguem “o interesse produtivo do agricultor” com a conservação e restauro dos ecossistemas. Nessa senda, são também importantes políticas públicas que permitam fazer essa transição e, sobretudo, que a incentivem, através de apoios públicos para mitigar potenciais quebras de rendimento resultantes dessa transformação.

Essas abordagens “deverão caminhar lado a lado de forma a chegarem a um maior número de agricultores, pois no fundo são eles que implementam a mudança”, salienta o investigador da Universidade de Évora.

Apesar da importância da aliança entre a agricultura e a conservação da Natureza, especialmente num planeta em convulsão e mais incerto, o incentivo a esse alinhamento não é ainda prioridade política em Portugal. No entanto, os agricultores não estão à espera de que o poder político se chegue à frente e vão fazendo eles o seu próprio caminho.

Isso acontece, a pouco e pouco, “à medida que os agricultores vão reconhecendo os benefícios de práticas consideradas mais sustentáveis ou mesmo regenerativas”, diz Ricardo Vieira Santos, destacando o papel “fundamental” da academia e das associações de agricultores na experimentação e divulgação de conhecimento.

David Fangueiro, do ISA, diz-nos que fazer da produção agrícola e da conservação da biodiversidade duas faces de uma mesma moeda “deveria, sem dúvida, tornar-se numa das prioridades nos próximos anos”. Ainda que os agricultores estejam já a lançar mãos à obra e a implementar a suas próprias medidas, “seria uma mais-valia se houvesse incentivos para estas novas práticas”, salienta.

Aliar a produção agrícola à conservação da biodiversidade implica, portanto, mudar a forma como nas últimas décadas se tem feito grande parte da agricultura (certo que não toda) e como se tem olhado para os ecossistemas e para o mundo natural, e também tentar olhar para os tempos que estão por vir para preparar e adaptar a cenários possivelmente adversos.

Mais do que conservar, regenerar

É neste caminho de construção de uma relação cada vez mais sustentável e próxima entre agricultura e Natureza, em que a ambas possam reforçar-se e beneficiar-se mutuamente, que surge uma série de abordagens à produção agrícola. Uma delas é a Agricultura Regenerativa (AR).

Embora não haja ainda uma definição científica consensual, a AR, em traços muito largos, tem como objetivo precisamente fazer com que a regeneração dos ecossistemas e a produção agrícola não estejam em lados opostos da barricada. De acordo com a Aliança Europeia de Agricultura Regenerativa, os agricultores que a praticam mostram que as colheitas mais resilientes e com maior qualidade são conseguidas através “da regeneração dos ecossistemas, com vários co-benefícios para a saúde e para a mitigação das alterações climáticas”.

Numa tentativa para harmonizar as várias definições, em 2020, um grupo de investigadores encabeçado por Loekie Schreefel, num artigo publicado na revista ‘Global Food Security’, propõe que a agricultura regenerativa seja entendida como “uma abordagem ao cultivo que usa a conservação do solo como ponto de partida para regenerar e contribuir para múltiplos serviços de aprovisionamento, regulação e suporte”, com o objetivo não apenas de melhorar a dimensão ambiental, “mas também as dimensões social e económica da produção sustentável de alimentos”.

Os proponentes da AR defendem que é a abordagem mais indicada para ajudar a combater as crises climática e de perda de biodiversidade, ao mesmo tempo que torna a produção de alimentos mais resiliente a choques ambientais e a eventos extremos e mais alinhada com a conservação da Natureza.

João Roseiro, da SLM Partners, explica-nos que a AR “não é um sistema fechado nem um modo de produção regulamentado”. É, isso sim, “um enquadramento conceptual” que tem por base princípios como a regeneração do solo, a promoção da biodiversidade, a melhoria do ciclo da água e o reforço da resiliência dos ecossistemas agrícolas.

Enquanto a agricultura biológica, por exemplo, caracteriza-se por “regras rígidas de processos, como a exclusão de determinados fertilizantes e fitofármacos de síntese”, acrescenta o agrónomo, a AR “enfatiza os resultados ecológicos mensuráveis”, tais como o aumento da matéria orgânica do solo e a melhoria da sua estrutura física e biológica, ou a maior estabilidade da produção agrícola no contexto de crise climática. Ou seja, ao passo que a biológica centra-se em processos, a regenerativa está orientada para os resultados.

Lembrando-nos de que é a base da agricultura, na melhoria da qualidade do solo a AR pode ter “um papel crucial”, acredita Ricardo Vieira Santos. O investigador da Universidade de Évora explica que, para tal, a agricultura tem se de orientar por práticas regenerativas assentes em cinco grandes princípios: a mínima perturbação do solo, a diversificação das espécies plantadas, o uso de culturas de cobertura com plantas vivas ou fragmentos delas para proteger o solo dos elementos, o máximo número possível de raízes vivas no solo e a introdução de gado para ajudar a revitalizá-lo.

Apesar do que se possa pensar, a AR não surge como uma alternativa a outros modos de agricultura, como a convencional ou a biológica, mas sim como completamento, uma vez que cada um dos dois modos anteriores pode incorporar, em maior ou menor grau, práticas regenerativas.

“A agricultura regenerativa é uma nova forma de produzir que vem oferecer aos agricultores mais uma opção para definirem as melhores estratégias para a sua realidade”, diz David Fangueiro do ISA e coordenador do centro LEAF.

“Não irá ‘acabar’ com os outros modos de produção, surge apenas como mais uma opção, o que é sempre positivo”, aponta, acrescentando que “penso que iremos ter no futuro os três modos de produção, convencional, regenerativo e biológico, a serem usados em contextos distintos”.

A Regenerativa em Portugal

Embora não existam ainda dados consolidados sobre a AR em Portugal, os especialistas dizem que, aqui e ali, vão surgindo iniciativas e explorações que aplicam práticas regenerativas, ainda que, a nível nacional, a AR na sua plenitude não seja ainda muito praticada.

A sementeira direita, sem se ter de perturbar o solo, o uso de culturas de cobertura e a integração de animais, por exemplo, em pomares já acontecem pelo país, e as práticas regenerativas começam também a ser usadas em culturas permanentes, em sistemas agroflorestais e na agricultura de conservação. Essa última integra várias práticas da AR, mas o foco é em manter e proteger o que existe, ao passo que o da AR é regenerar e recuperar.

Há também projetos, uns de ordem mais prática, outros de índole mais científica, que têm como objetivo aumentar o conhecimento sobre essa área emergente e levá-lo aos agricultores e com eles desenvolver soluções.

Um deles é o “SOILRES – Integração multifacetada da biodiversidade para um solo saudável e culturas resilientes”, um projeto europeu coordenado pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, no qual Portugal participa através da Quinta da Cholda e de uma equipa de investigadores do LEAF, incluindo David Fangueiro.

O grande objetivo deste projeto é melhorar a saúde do solo e fortalecer a resiliência das culturas em resposta à degradação dos solos, ao uso excessivo de pesticidas e aos impactos das alterações climáticas. A abordagem passa por promover práticas agrícolas sustentáveis que dão prioridade à biodiversidade e às interações dinâmicas entre o solo, as plantas e os microrganismos.

Tendo arrancado no dia 1 de junho de 2025 e estendendo-se até 31 de maio de 2029, o SOILRES contempla ensaios para validar e melhorar as intervenções inovadoras em seis casos distintos que, diz-nos David Fangueiro, representam as principais regiões agroclimáticas na Europa: a Atlântica (Dinamarca), a Boreal (Finlândia), a Continental (França), a Panónica (Hungria) e a Mediterrânica (Itália e Portugal).

“Ao avaliar o desempenho agronómico, os benefícios ambientais e a relação custo-benefício, o projeto identificará desafios e oportunidades, desenvolvendo, em última instância, estratégias otimizadas para ampliar e replicar práticas sustentáveis nos sistemas agrícolas europeus”, incluindo Portugal, explica o investigador do ISA e coordenador do centro LEAF.

Por cá, os parceiros irão desenvolver estudos sobre o uso de culturas de cobertura e de bioestimulantes na cultura do milho.

Apesar do interesse académico e de algumas explorações e agricultores na AR, persistem obstáculos que, por agora, travam a sua expansão. A falta de conhecimento e de formação sobre essas práticas é apontada pelos especialistas como um dos principais.

Ricardo Vieira Santos, da Universidade de Évora, está confiante de que, à medida que forem sendo demonstrados os benefícios da AR e divulgados os resultados obtidos, “mais agricultores tenderão a aderir a esta forma de produção”.

Nesse sentido, destaca como importante a formação dos agricultores nas práticas regenerativas, especialmente numa fase inicial. Mas não é tudo, pois também a transição poderá acarretar custos com a aquisição de equipamentos ou auxílio técnico, pelo que o investigador considera que apoios podem “incentivar o agricultor à mudança”.

A esse respeito, João Roseiro, da SLM Partners, destaca que os obstáculos à AR em Portugal “são conhecidos” e semelhantes aos que se veem a nível internacional, como “o risco económico durante a fase de transição, a falta de conhecimento técnico aplicado, ausência de incentivos claros e dificuldade em medir e valorizar os benefícios ecológicos”.

Por isso, as barreiras ao desenvolvimento e disseminação da AR tendem a não ser tanto tecnológicas, mas sobretudo económicas e institucionais.

A conservação não tem de limitar a produção

Provavelmente, para muitos a conservação e restauro da biodiversidade é sinónimo de restrições e perdas de produtividade e de rentabilidade. No entanto, a AR não tem necessariamente de ser vista como inimiga da produção.

De uma perspetiva económica, “a agricultura regenerativa não é incompatível com a rentabilidade financeira”, assegura-nos João Roseiro. Isso, porque, quando combinadas com uma gestão eficiente e com acesso a mercados diferenciados, as práticas regenerativas podem “reduzir custos variáveis, aumentar a estabilidade financeira e melhorar margens no médio-prazo”, acrescenta.

A AR pode também promover a rentabilidade agrícola, por exemplo, ao melhorar a fertilidade do solo e reduzir custos com adubos, e também por um “possível aumento de receita” devido a uma maior produtividade e qualidade dos alimentos, diz Ricardo Vieira Santos.

“Implica uma mudança de mentalidade, não só nas práticas agrícolas, mas também na forma como o agricultor lida com o mercado”, salienta. “É necessário continuar o desenvolvimento de soluções, enfrentar os desafios que forem surgindo, adaptar práticas e mentalidades a uma nova abordagem, mas é possível fazer diferente e para melhor.”

David Fangueiro, por sua vez, concorda que as práticas regenerativas ajudam a reduzir custos, mas reconhece também que pode haver quebras de produção, podendo existir situações em que a AR não seja rentável. Por isso, cada prática regenerativa deve ser adaptada ao contexto específico em que está a ser aplicada, pois cada caso é um caso e não existem medidas de “tamanho único”.

“A conservação deve ser feita em conjunto com o setor agrícola que é um dos principais beneficiários. Havendo este diálogo, creio que será possível, encontrar soluções de compromisso que não limitem o setor agrícola”, sentencia o investigador do ISA.

Como tal, a conservação da biodiversidade não tem de limitar a agricultura nem de pôr em risco a sua rentabilidade. Argumenta João Roseiro que “essa visão ignora que a degradação ecológica representa, ela própria, um risco económico significativo”, com custos crescentes para vários setores, incluindo a agricultura.

“A questão central não é se a conservação impõe limites, mas se esses limites são desenhados de forma inteligente, proporcional e acompanhados de incentivos adequados.”

Ricardo Vieira Santos destaca a importância do foco da AR nos resultados e não nos processos, pois isso dará ao agricultor maior liberdade para poder aplicar as medidas que entenda serem as mais adequadas para si e para alcançar os resultados pretendidos ao nível da conservação do ecossistema.

“Deve ser dada mais atenção aos resultados obtidos na conservação do ecossistema do que propriamente à limitação de práticas, até porque o agricultor conhecedor da sua exploração é a melhor pessoa para saber o que pode e deve fazer para melhorar a conservação do seu ecossistema.”

Agricultura em crise climática

Num planeta a mudar rapidamente, a agricultura terá também ela de mudar, de se tornar mais sustentável e mais resiliente, para zelar pela segurança alimentar de todos nós, pela sua própria rentabilidade e também pela proteção dos ecossistemas dos quais ela tanto depende.

No campo climático, as práticas regenerativas podem ajudar a reter durante mais tempo o carbono no solo e nas plantas, reduzindo as emissões da produção de alimentos, contribuir para a preservação e uso mais eficiente da água e ser mais um aliado nos esforços de conservação e restauro da biodiversidade. Todas essas ações contribuem para a mitigação e adaptação climáticas e para a preparação do setor para os cenários futuros, alguns dos quais bem negros, que a Ciência nos diz, repetidamente, que podem vir a acontecer se os humanos não mudarem rapidamente a forma como têm tratado a Terra.

A AR pode ser parte da solução, embora, como nos diz João Roseiro, “não é uma solução milagrosa”. Ainda assim, se “aplicada com rigor científico, pragmatismo económico e honestidade intelectual”, será estrategicamente relevante.

O “verdadeiro desafio”, assegura-nos, está em “transformar sistemas produtivos de forma consistente com os limites ecológicos do planeta e com a necessidade de garantir segurança alimentar a longo prazo”.

Para Ricardo Vieira Santos, a chave para o futuro da agricultura está em escolher as práticas que melhor se adequem a cada caso concreto e que permitam “maximizar a rentabilidade e os benefícios no ecossistema”, e, nesse aspeto, a AR pode proporcionar essa sinergia. A disseminação dessa abordagem pode ser fundamental para tornar a agricultura portuguesa mais resiliente e para tentar evitar possíveis quebras na produção e na rentabilidade.

Olhando para os tempos que se avizinham, David Fangueiro considera que a agricultura continuará a caminhar para uma maior eficiência, combinando diferentes modos de produção e “tendo sempre como objetivo principal a produção de alimentos de qualidade e a preservação do solo”.

Isto, porque, como declara o investigador do ISA, “sem solos saudáveis não se podem produzir alimentos saudáveis”.

Fonte: sapo.pt

» Enviar a amigo

Qualfood - Base de dados de Qualidade e Segurança Alimentar
Copyright © 2003-2026 IDQ - Inovação, Desenvolvimento e Qualidade, Lda.
e-mail: qualfood@idq.pt