05 de Agosto de 2026
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Relatório defende agricultura resiliente ao clima como prioridade económica para a Europa
2026-08-04
Qualfood

Um relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA) defende que a agricultura resiliente ao clima deve ser tratada como uma prioridade económica para a Europa, num contexto de aumento dos riscos climáticos e de maior pressão sobre a viabilidade das explorações agrícolas.

O documento, intitulado Construir uma agricultura resiliente às alterações climáticas na Europa: uma perspetiva económica, relaciona os riscos climáticos com a vulnerabilidade das explorações e os seus impactos económicos, com base em 51 estudos de caso europeus.

Segundo o relatório, as explorações agrícolas europeias enfrentam uma pressão crescente resultante da convergência entre extremos climáticos e fragilidade económica. Ondas de calor, secas, cheias, tempestades e riscos combinados estão a afetar a produção em várias regiões europeias, ao mesmo tempo, os agricultores continuam expostos à volatilidade dos preços dos fatores de produção.

O documento defende que a resiliência deve ser construída através da redução da dependência de fatores externos e de operações dispendiosas, diminuindo o nível de produtividade ou de preço necessário para evitar perdas.

Redução de custos como alavanca económica

Entre as principais conclusões, o relatório aponta a redução da dependência de fatores de produção externos e de operações de campo como uma das alavancas económicas mais consistentes ao nível da exploração.

Num dos casos analisados, a mobilização mínima do solo permitiu reduzir o consumo de gasóleo em cerca de 50%, os custos de produção em cerca de 40% e a necessidade de mão de obra para níveis cerca de 25% a 30% inferiores aos sistemas convencionais.

O relatório sublinha, no entanto, que os retornos económicos associados à resiliência climática variam entre regiões, sistemas produtivos e contextos agrícolas. Por isso, defende que as estratégias devem ser ajustadas às condições específicas de cada território.

A agricultura resiliente ao clima é apresentada como uma estratégia de estabilização económica. Ao reduzir a dependência de fatores de produção comprados e sujeitos a volatilidade, e ao reforçar as funções do solo e da água, estes sistemas podem diminuir a exposição a choques e contribuir para uma produção agrícola mais estável.

Solos e água sob pressão

O relatório alerta que os solos europeus estão sob pressão crescente devido à intensificação agrícola, ao uso intensivo de fertilizantes e pesticidas, à utilização de maquinaria pesada e ao agravamento de fenómenos climáticos extremos.

Estima-se que mais de 60% dos solos europeus estejam atualmente em mau estado. O custo anual da degradação do solo na União Europeia é estimado entre 40,9 mil milhões e 72,7 mil milhões de euros, considerando fatores como erosão, contaminação, perda de nutrientes e carbono, compactação e impermeabilização.

O documento da AEA acrescenta que estes custos poderão ser mais elevados, uma vez que algumas avaliações não incluem impactos como perda de biodiversidade, cheias, secas, erosão fora do local e efeitos na saúde.

A seca é identificada como um dos riscos economicamente mais relevantes para a agricultura. Em anos particularmente secos, a produtividade agrícola pode diminuir até 22%. A duplicação da duração da seca poderá reduzir a produção de culturas como soja e milho até 10%.

Diferentes riscos por região

O relatório identifica riscos climáticos distintos nas várias regiões europeias. O sul da Europa enfrenta secas crónicas, ondas de calor extremas e escassez de água. No norte da Europa, os principais riscos passam por invernos mais instáveis, solos saturados e aumento das temperaturas.

Na Europa Ocidental, o risco crescente de cheias pode atrasar colheitas e sementeiras devido a precipitação intensa. Já a Europa Central e Oriental enfrenta uma combinação de seca, stress térmico, aridez de longo prazo e risco de cheias rápidas.

Segundo o relatório, os riscos climáticos provocam maiores danos quando interagem com sistemas agrícolas mais vulneráveis, nomeadamente explorações muito dependentes de água, solos degradados, monoculturas, animais expostos e elevada dependência de fatores de produção externos.

Estas pressões traduzem-se em perdas de rendimento, aumento dos custos de irrigação e de fatores de produção, stress térmico nos animais, erosão do solo e maior dependência de fertilizantes, pesticidas e alimentação animal importada.

Práticas resilientes

O relatório defende que as práticas agrícolas resilientes ao clima reduzem o risco ao reconstruir a saúde do solo, diversificar a produção, melhorar a eficiência hídrica e diminuir a dependência de fatores externos.

Muitos dos estudos de caso analisados mostram que o reforço de funções ecológicas, como a cobertura do solo, a rotação de culturas e a introdução de elementos de paisagem, pode contribuir para a resiliência económica. Esse efeito pode ocorrer através da redução de custos e operações agrícolas ou, quando os benefícios são sobretudo públicos, através de compensações ou coinvestimento que tornem a adoção viável para os agricultores.

No sul da Europa, a resiliência climática é apresentada como uma condição de sobrevivência económica. Segundo a análise, em Portugal, as transições identificadas tendem a combinar a redução da exposição a custos de combustível, fertilizantes e água com investimentos iniciais em maquinaria e infraestrutura hídrica.

Em Espanha, a resiliência está associada à gestão da escassez de água, à redução da base de custos, à melhoria da capacidade de retenção de água no solo e, em alguns casos, à diversificação produtiva.

Necessidade de apoio à transição

O relatório conclui que muitas práticas de resiliência climática geram benefícios públicos, mas impõem custos privados aos agricultores ou retornos económicos fracos no curto prazo.

Por esse motivo, defende que o financiamento e os incentivos devem responder ao risco inicial de investimento e transição. Algumas práticas exigem maquinaria especializada, infraestruturas ou alterações profundas no sistema produtivo, o que pode limitar a adoção sem apoio público, compensação ou mecanismos de partilha de risco.

O documento recomenda ainda que as políticas públicas priorizem medidas que reduzam a dependência de fatores de produção externos e operações dispendiosas, apoiem a diversificação quando esta melhora a margem ajustada ao risco e reforcem a gestão da água com base em informação climática.

O relatório alerta também para a necessidade de indicadores harmonizados e monitorização sistemática. Sem dados comparáveis sobre exposição ao risco, redução da vulnerabilidade e resultados de adaptação, será difícil avaliar se as medidas da Política Agrícola Comum estão a reduzir o risco climático, melhorar a resiliência do solo e da água ou estabilizar o rendimento agrícola.

Segundo o documento, a Europa deve passar de uma gestão reativa de crises para uma estratégia de resiliência proativa, capaz de proteger as economias rurais, estabilizar a produção e reforçar a viabilidade de longo prazo dos sistemas agrícolas.

Fonte: Vida Rural

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