Em entrevista à Green Savers, Manuela Pintado, diretora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, explica como a ciência está a transformar os alimentos do futuro, conciliando saúde, sustentabilidade e inovação.
A alimentação do futuro está a ser desenhada muito para além da escolha de ingredientes. Para Manuela Pintado, compreender e controlar a estrutura dos alimentos à escala microscópica é hoje uma das áreas mais promissoras da inovação alimentar, permitindo desenvolver produtos com menos açúcar, sal e gordura, sem comprometer o sabor, a textura ou a experiência do consumidor. Esta abordagem abre também caminho a novas soluções para responder aos desafios do envelhecimento da população, da nutrição personalizada e da crescente procura por alternativas proteicas mais sustentáveis.
Ao longo da entrevista, a investigadora defende que a biotecnologia e a valorização de recursos subaproveitados serão determinantes para construir sistemas alimentares mais resilientes e circulares. Entre proteínas de origem vegetal e marinha, aproveitamento de subprodutos agroalimentares e alimentos adaptados às necessidades específicas de cada pessoa, Manuela Pintado antecipa uma transformação profunda do setor, onde ciência, indústria e sustentabilidade terão de caminhar lado a lado para responder aos desafios ambientais e alimentares das próximas décadas.
O tema do Innovation Day 2026 centrou-se na forma como a estrutura microscópica dos alimentos pode influenciar a sua composição e propriedades. De que forma é que esta abordagem está a transformar a indústria alimentar e o desenvolvimento de novos produtos?
A estrutura microscópica dos alimentos está a tornar-se tão importante como a sua composição. Hoje, a inovação já não passa apenas por alterar ingredientes, mas por desenhar a forma como os diferentes componentes de um alimento se organizam, influenciando a textura, o sabor, a saciedade e até a forma como os nutrientes são disponibilizados ao organismo.
Esta abordagem permite desenvolver produtos mais saudáveis e sustentáveis, com menos açúcar, sal ou gordura, mantendo a experiência sensorial que o consumidor procura. É também fundamental para criar alimentos adaptados a necessidades específicas, como as da população idosa, ou para melhorar a aceitação de produtos à base de proteínas alternativas.
Foi precisamente esta visão que esteve no centro do Innovation Day 2026: utilizar o conhecimento da estrutura dos alimentos para conceber produtos simultaneamente mais nutritivos, sustentáveis e atrativos para o consumidor, transformando a ciência em soluções concretas para a indústria alimentar.
A procura por alimentos mais saudáveis tem levado à redução de ingredientes como açúcar, sal e gordura. Que avanços científicos permitem atingir esse objetivo sem comprometer o sabor, a textura e a experiência do consumidor?
Hoje sabemos que o sabor e a textura dos alimentos não dependem apenas da quantidade de açúcar, sal ou gordura, mas também da forma como estes componentes estão organizados no alimento. Ao controlar essa estrutura, é possível aumentar a perceção de doçura, salgado ou cremosidade sem aumentar a quantidade destes ingredientes.
Por exemplo, novas estruturas desenvolvidas a partir de proteínas e fibras conseguem reproduzir a sensação de cremosidade associada à gordura, enquanto técnicas que controlam a distribuição e a libertação de sal e açúcar na boca permitem manter a intensidade do sabor com quantidades mais reduzidas.
Estes avanços são especialmente importantes para responder aos desafios da saúde pública e do envelhecimento da população. O objetivo é desenvolver alimentos mais saudáveis e sustentáveis, sem comprometer o prazer de comer, conciliando nutrição, textura, sabor e bem-estar numa única solução.
As proteínas alternativas, especialmente de origem vegetal, têm ganho destaque nos últimos anos. Que desafios tecnológicos continuam por ultrapassar para que estes produtos sejam mais atrativos e acessíveis ao consumidor?
As proteínas alternativas têm um enorme potencial para tornar o sistema alimentar mais sustentável, mas ainda enfrentam alguns desafios. O principal é reproduzir as características que os consumidores mais valorizam nos produtos de origem animal, nomeadamente a textura, a suculência e o sabor. Hoje sabemos que isso depende não apenas da composição, mas sobretudo da estrutura do alimento, razão pela qual a investigação está cada vez mais focada no desenho e na estruturação destas proteínas.
Os trabalhos desenvolvidos no Centro de Biotecnologia e Química Fina têm demonstrado que é possível utilizar proteínas de origem vegetal e outras fontes sustentáveis para criar alimentos nutricionalmente equilibrados e sensorialmente mais apelativos. O desafio passa por combinar ingredientes, processos e estrutura alimentar para aproximar a experiência de consumo daquela a que as pessoas estão habituadas, sem perder os benefícios ambientais e nutricionais.
Outro desafio é a acessibilidade. Para que estas soluções tenham impacto real, é necessário desenvolver processos mais eficientes e economicamente viáveis. O objetivo não é apenas substituir proteínas animais, mas disponibilizar opções nutritivas, sustentáveis e atrativas para um número crescente de consumidores.
A inovação alimentar é frequentemente apontada como uma ferramenta importante para responder aos desafios ambientais. Que contributo podem dar estas novas tecnologias para a redução da pegada ecológica dos sistemas alimentares?
A inovação alimentar tem um papel fundamental na transição para sistemas alimentares mais sustentáveis. Hoje, o desafio não é apenas produzir mais alimentos, mas produzir melhor, utilizando os recursos de forma mais eficiente e valorizando matérias-primas até aqui subaproveitadas.
No Centro de Biotecnologia e Química Fina, temos trabalhado no desenvolvimento de ingredientes e alimentos a partir de fontes sustentáveis, incluindo subprodutos agroalimentares e novas fontes proteicas, promovendo a economia circular e reduzindo o desperdício. Paralelamente, o conhecimento da estrutura dos alimentos permite desenvolver produtos nutricionalmente adequados com menor utilização de recursos, sem comprometer a qualidade ou a aceitação pelo consumidor.
O objetivo final é construir sistemas alimentares mais resilientes e sustentáveis, que utilizem menos água, energia e matérias-primas, gerando simultaneamente benefícios para a saúde das pessoas e para o planeta.
Até que ponto é que a biotecnologia está a acelerar a criação de alimentos mais sustentáveis e adaptados às necessidades de uma população global em crescimento?
A biotecnologia está a acelerar a criação de alimentos mais sustentáveis porque permite aproveitar melhor os recursos naturais e transformar matérias-primas pouco valorizadas em ingredientes com elevado valor nutricional e funcional.
No Centro de Biotecnologia e Química Fina, temos trabalhado na valorização de subprodutos agroalimentares, na identificação de compostos bioativos naturais e no desenvolvimento de novas fontes sustentáveis de proteínas e ingredientes alimentares. Uma área particularmente promissora é a biotecnologia azul, que explora recursos marinhos, como algas e microalgas, para obter ingredientes saudáveis e com menor impacto ambiental.
Ao mesmo tempo, a biotecnologia permite desenvolver alimentos adaptados às necessidades de diferentes grupos da população, conciliando nutrição, sustentabilidade e qualidade sensorial. O grande desafio é garantir que estas soluções sejam produzidas à escala industrial e a preços acessíveis, para que possam contribuir para alimentar uma população crescente de forma mais saudável e sustentável.
Muitas das soluções desenvolvidas em laboratório demoram anos a chegar ao mercado. Quais são atualmente as principais barreiras à transferência de conhecimento científico para a indústria alimentar?
Hoje, a principal barreira já não é a falta de conhecimento científico. O grande desafio é transformar esse conhecimento em soluções que respondam às necessidades da indústria, dos consumidores e da sustentabilidade.
A transferência de tecnologia exige que investigadores e empresas trabalhem em conjunto desde as fases iniciais do desenvolvimento. Muitas soluções apresentam excelentes resultados em laboratório, mas a sua implementação industrial requer adaptação à produção em grande escala, viabilidade económica, estabilidade do produto e aceitação pelo consumidor.
Existem também desafios regulatórios importantes. Em áreas emergentes, como novos ingredientes ou processos biotecnológicos inovadores, a legislação nem sempre acompanha o ritmo da ciência, o que pode atrasar a chegada de soluções seguras e promissoras ao mercado.
Por outro lado, persistem alguns desafios tecnológicos entre a prova de conceito e a industrialização. Nem sempre existem processos, equipamentos ou cadeias de fornecimento suficientemente desenvolvidos para permitir uma implementação rápida e competitiva.
Por isso, acredito que a inovação alimentar depende cada vez mais da cocriação entre universidades, centros de investigação, empresas e reguladores. No Centro de Biotecnologia e Química Fina da Universidade Católica Portuguesa temos vindo a promover esse modelo colaborativo, aproximando a ciência dos desafios reais do mercado e aumentando a probabilidade de gerar soluções com impacto económico, social e ambiental. Mais do que transferir conhecimento, o objetivo é transformar conhecimento em inovação com aplicação real.
Os consumidores demonstram uma crescente preocupação com a origem e o impacto ambiental dos alimentos. Como tem evoluído a perceção pública relativamente a produtos desenvolvidos com recurso a tecnologias avançadas?
A perceção dos consumidores tem evoluído de forma muito positiva, acompanhando uma maior consciência da relação entre alimentação, saúde e sustentabilidade. Hoje, os consumidores querem saber não apenas o que comem, mas também como os alimentos são produzidos e qual o seu impacto ambiental.
No entanto, a aceitação de tecnologias avançadas continua a depender da informação e da confiança. Os consumidores tendem a valorizar mais uma inovação quando percebem o seu benefício concreto, seja na redução do desperdício alimentar, na valorização de subprodutos ou na produção de alimentos mais saudáveis e sustentáveis.
A nossa experiência mostra que o fator decisivo não é a tecnologia em si, mas a forma como esta é comunicada. Conceitos como biotecnologia, fermentação ou agricultura celular podem gerar alguma resistência quando são pouco compreendidos, mas a aceitação aumenta significativamente quando existe transparência sobre os processos, a segurança e os benefícios.
Por isso, para além da inovação científica, é essencial investir em literacia alimentar e no envolvimento dos consumidores.
Que tendências acredita que irão marcar a alimentação da próxima década e que papel poderá Portugal desempenhar neste processo de inovação?
A próxima década será marcada por uma visão mais integrada da alimentação, em que saúde, sustentabilidade e inovação caminham lado a lado. Veremos o crescimento da agricultura regenerativa e de sistemas de produção mais resilientes, capazes de preservar os recursos naturais, aumentar a biodiversidade e reforçar a autonomia e a soberania alimentar.
Ao mesmo tempo, os alimentos serão cada vez mais orientados para a promoção da saúde e para a prevenção da doença, com soluções adaptadas a diferentes grupos populacionais. A personalização da alimentação, apoiada pela biotecnologia, pela nutrição de precisão e pela ciência dos dados, será uma tendência crescente.
Outra área de grande impacto será a valorização integral dos recursos biológicos, transformando subprodutos e biomassa subaproveitada em novos ingredientes, alimentos e bioprodutos de elevado valor acrescentado. Esta abordagem impulsionará a bioeconomia, promoverá cadeias alimentares mais circulares e ajudará a reduzir a dependência de matérias-primas importadas.
Portugal está muito bem posicionado para participar nesta transformação, graças à sua capacidade científica, aos recursos agrícolas e marinhos, à qualidade do seu setor agroalimentar e a uma indústria cada vez mais inovadora. O desafio será reforçar a ligação entre ciência, empresas e políticas públicas, promovendo a produção local, a valorização dos recursos nacionais e sistemas alimentares mais sustentáveis, competitivos e menos dependentes do exterior.
O desenvolvimento de alimentos mais saudáveis nem sempre garante escolhas alimentares mais sustentáveis. Como pode a investigação ajudar a conciliar objetivos nutricionais, ambientais e económicos?
Acredito que sim. Saúde, sustentabilidade e viabilidade económica não têm de ser objetivos opostos; pelo contrário, quando a inovação é bem orientada, podem reforçar-se mutuamente.
A investigação tem demonstrado que é possível desenvolver alimentos com melhor perfil nutricional recorrendo a matérias-primas locais, valorizando subprodutos agroalimentares e aproveitando recursos que antes eram desperdiçados. Isto permite aumentar o valor dos alimentos, reduzir perdas ao longo da cadeia e criar novas oportunidades económicas para produtores e empresas.
Outro aspeto importante é que a sustentabilidade não se mede apenas pelo impacto ambiental. Um alimento só é verdadeiramente sustentável se combinar qualidade nutricional, acessibilidade económica, aceitação pelo consumidor e impacto positivo nos recursos naturais.
Por isso, a investigação deve integrar desde o início as dimensões nutricional, ambiental, social e económica. O objetivo é desenvolver soluções que promovam a saúde, valorizem os recursos disponíveis e reforcem a competitividade das empresas. Essa visão integrada será essencial para construir sistemas alimentares mais resilientes, circulares e sustentáveis no futuro.
Se tivéssemos de imaginar o prato de um consumidor em 2040, quais seriam as principais diferenças em relação à alimentação que conhecemos atualmente?
Se imaginarmos o prato de 2040, acredito que será simultaneamente mais tecnológico e mais próximo da natureza. Será um prato mais diversificado, equilibrado e adaptado às necessidades de cada pessoa.
Continuaremos a reconhecer os princípios da Dieta Mediterrânica, com frutas, hortícolas, leguminosas, cereais integrais, azeite e pescado, mas complementados por novas fontes proteicas sustentáveis de origem vegetal e marinha. O objetivo não será substituir os alimentos tradicionais, mas combinar diferentes fontes de nutrientes para garantir qualidade nutricional, sustentabilidade e sabor.
Veremos também uma maior valorização dos produtos locais e sazonais e cadeias alimentares mais curtas e transparentes. Os avanços da ciência permitirão desenvolver alimentos mais ricos em fibra, compostos bioativos e proteínas de elevada qualidade, ajustados às necessidades de diferentes grupos da população.
No fundo, o prato de 2040 será mais sustentável e personalizado, mas continuará a assentar num princípio simples: variedade, equilíbrio e valorização dos recursos locais. Porque a alimentação do futuro não será apenas uma questão de nutrientes ou tecnologia, continuará a ser também uma questão de sabor, cultura, identidade e emoção.
Fonte: GreenSavers