29 de Maio de 2026
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Ainda se lembra quando uma dúzia de ovos custava menos de dois euros?
2026-05-28
Qualfood

Há pouco mais de quatro anos, muitos produtos essenciais tinham preços que hoje parecem distantes da realidade dos consumidores portugueses. Em janeiro de 2022, antes da guerra na Ucrânia e da escalada internacional dos custos energéticos, uma dúzia de ovos custava menos de dois euros, o leite rondava os 70 cêntimos por litro e vários produtos alimentares mantinham valores bastante inferiores aos atuais. Desde então, a inflação disparou e, apesar de o ritmo de subida dos preços ter abrandado nos últimos anos, o custo de vida nunca voltou aos níveis anteriores.

Numa análise baseada em dados do Índice de Preços no Consumidor do Instituto Nacional de Estatística (INE), a CNN Portugal avaliou a evolução dos preços entre janeiro de 2022 e abril de 2026, concluindo que muitos bens essenciais registaram aumentos acumulados superiores a 30%, havendo mesmo produtos que ultrapassaram os 70%.

Os ovos destacam-se como o caso mais expressivo. Segundo as contas realizadas a partir dos dados oficiais, o preço deste produto aumentou mais de 75% desde o início de 2022. Uma dúzia de ovos que, há cerca de quatro anos, custava aproximadamente 1,90 euros, ronda agora os 3,30 euros, traduzindo uma subida superior a um euro por embalagem.

O leite também sofreu aumentos significativos. O leite magro encareceu 54% desde 2022, o que significa que um litro atualmente vendido por cerca de 1,08 euros custaria aproximadamente 70 cêntimos antes da crise inflacionista. Já o leite gordo, que hoje ronda 1,19 euros por litro, acumulou uma subida de 48,4%, quando anteriormente estaria próximo dos 80 cêntimos.

A carne acompanhou esta tendência de forte valorização. Os preços registaram um aumento acumulado de 44,1% em pouco mais de quatro anos. Uma embalagem de bifes de frango com 680 gramas, atualmente vendida por cerca de 4,75 euros, teria custado perto de 3,30 euros em janeiro de 2022. O mesmo sucede com o bife da vazia de novilho: uma embalagem de 270 gramas, hoje nos 5,40 euros, rondaria os 3,75 euros antes da escalada inflacionista.

Mesmo produtos tradicionalmente associados a refeições económicas deixaram de ter preços acessíveis para muitas famílias. As salsichas frescas de porco, por exemplo, custam atualmente cerca de 2,99 euros por embalagem de 500 gramas, quando há quatro anos o preço estaria mais próximo dos dois euros.

A manteiga e outras gorduras derivadas do leite acumulam uma subida de 37,2%. Uma embalagem de 250 gramas que hoje custa 2,49 euros teria um preço aproximado de 1,81 euros no início de 2022.

Os cereais também registaram aumentos expressivos, na ordem dos 34,3%. Uma embalagem de 750 gramas de cereais de marca branca, atualmente vendida por 2,75 euros, custaria perto de dois euros há pouco mais de quatro anos.

No peixe, a subida acumulada atinge os 31,1%. Um quilo de filetes de pescada congelada, atualmente nos 6,99 euros, rondaria os 5,33 euros antes da crise inflacionista. Já a dourada fresca aproxima-se atualmente dos 10 euros por quilo, quando em 2022 custaria cerca de 7,60 euros.

O pão e os produtos de padaria também sofreram aumentos relevantes. Segundo os dados analisados, os preços cresceram 30,5% desde janeiro de 2022. Uma embalagem de pão de Rio Maior com 450 gramas, hoje vendida por 1,19 euros, custaria cerca de 91 cêntimos há quatro anos. Já uma bola de lenha passou de pouco mais de 37 cêntimos para os atuais 49 cêntimos.

Os laticínios acompanham igualmente esta tendência. O queijo aumentou quase 30% desde 2022. Uma embalagem de queijo flamengo fatiado de 800 gramas, atualmente à venda por 8,79 euros, custaria aproximadamente 6,77 euros antes da escalada dos preços.

Até o café, apesar de apresentar a subida mais moderada entre os produtos analisados, encareceu quase 25%. Uma embalagem de 16 cápsulas de café expresso de marca branca, atualmente vendida por 3,85 euros, custaria pouco mais de três euros em janeiro de 2022.

Fora da alimentação, os aumentos mantêm-se visíveis. O vestuário acumulou uma subida de 19,1%, enquanto o tabaco encareceu 17,7%. Um maço de cigarros LM azul, atualmente vendido por 5,70 euros, custaria cerca de 4,84 euros há quatro anos.

O calçado surge como uma das poucas exceções à tendência generalizada de subida dos preços. Segundo os dados analisados, apresenta uma ligeira descida acumulada de 1,1% desde janeiro de 2022.

Para o economista João Rodrigues dos Santos, ouvido pela CNN Portugal, estes números ajudam a explicar porque tantas famílias sentem maiores dificuldades financeiras apesar de a inflação já não atingir os níveis recorde de 2022 e 2023. O especialista considera que a evolução dos preços representa “uma variação incomportável” e “muito desajustada do orçamento das famílias portuguesas”, defendendo que esta realidade obriga inevitavelmente a cortes no consumo de bens essenciais.

A análise evidencia também uma das principais confusões em torno da inflação: quando os indicadores mostram desaceleração, isso não significa que os preços estejam a descer. Significa apenas que continuam a aumentar a um ritmo mais lento. Na prática, os consumidores continuam a pagar significativamente mais do que pagavam há apenas quatro anos.

Fonte: Executive Digest

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