Portugal é um dos maiores produtores e exportadores de vinho do mundo, com vinhas que cobrem mais de 170 mil hectares e um setor que impacta direta e indiretamente mais de 168 mil empregos. Mas o vinho europeu está sob pressão e o Conselho da União Europeia decidiu agir com uma resposta de fundo.
“Embora a União continue a ser líder mundial na produção, consumo e valor exportado de vinho, as mudanças sociais e demográficas estão a ter impacto na quantidade, qualidade e tipos de vinho consumidos”, lê-se no documento oficial agora aprovado, notando ainda que “o consumo de vinho na União está no nível mais baixo das últimas três décadas”.
A isto acrescem mercados de exportação tradicionais adversamente afetados por uma combinação de tendências de consumo em queda e fatores geopolíticos, bem como uma produção cada vez mais imprevisível devido às alterações climáticas, fatores que, em conjunto, empurram os preços para baixo e esgotam as reservas financeiras dos viticultores.
Foi sob este ambiente que o Conselho da União Europeia aprovou esta segunda-feira um pacote legislativo abrangente que altera as regras de apoio ao setor vitivinícola, reconhecendo que a crise que os produtores enfrentam hoje é estrutural, e não passageira.
“Ao adotar hoje o regulamento relativo ao setor vitivinícola, menos de um ano após a sua proposta pela Comissão, o Conselho e os Estados-membros demonstram mais uma vez que estão atentos às preocupações dos agricultores e do setor agrícola, e que estão dispostos a tomar medidas eficazes para lhes dar resposta”, refere Maria Panayiotou, ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Ambiente do Chipre, em comunicado, sublinhando inclusive que, desta forma, “isso garante que o setor já possa se beneficiar deles este ano.”
O regulamento agora aprovado, que foi negociado durante meses entre o Parlamento Europeu e os Estados-membros, é a resposta mais ampla das últimas décadas às dificuldades do setor. Recorde-se que o Parlamento Europeu tinha dado luz verde ao texto legislativo a 10 de fevereiro, com uma maioria esmagadora de 625 votos a favor, 15 contra e 11 abstenções, e cabia agora ao Conselho dar o passo final.
O acordo político tinha sido fechado a 4 de dezembro de 2025, na sequência de recomendações formuladas pelo Grupo de Alto Nível para a Política do Vinho, criado precisamente para identificar soluções para os desafios que o setor enfrenta.
O que muda para os produtores europeus
Para gerir melhor a oferta e evitar a sobreprodução crónica, o novo regulamento reforça o sistema de autorizações de plantação de vinhas e confere aos Estados-membros maior flexibilidade regional.
O texto reconhece que “a relação entre a oferta de produção, a procura dos consumidores e as exportações no mercado mundial é atualmente instável, resultando em graves perturbações do mercado”, e por isso permite agora que os países limitem as novas plantações em zonas com excesso de oferta, chegando mesmo a fixar limites regionais de 0% para novas autorizações.
Em situações de catástrofe natural, eventos meteorológicos extremos ou surtos de doenças, os viticultores passam ainda a ter mais um ano para plantar ou replantar vinhas afetadas, sem penalizações administrativas. O pacote prevê também um conjunto significativo de apoios financeiros:
Uma das áreas com maior impacto para os consumidores diz respeito à rotulagem dos vinhos sem álcool ou com teor alcoólico reduzido, um segmento em crescimento acelerado em toda a Europa.
O regulamento harmoniza as regras a nível europeu: vinhos com menos de 0,05% de álcool deverão ser rotulados como “alcohol-free 0,0%” (sem álcool 0,0%), enquanto vinhos com teor igual ou superior a 0,5% de álcool, mas pelo menos 30% abaixo do padrão da categoria devem ser designados como “alcohol reduced” (teor alcoólico reduzido).
O texto final reconhece que “a procura crescente por parte dos consumidores de produtos de videira com teor alcoólico reduzido, produzidos por desalcoolização, representa uma oportunidade para o setor”, clarificando que é agora possível produzir vinhos espumantes desalcoolizados a partir de vinhos tranquilos através de segunda fermentação ou adição de dióxido de carbono.
O enoturismo e as vendas diretas nas regiões produtoras surgem igualmente reforçados no novo quadro legislativo. O documento reconhece que “o enoturismo é uma atividade comercial cada vez mais importante para muitos operadores vitivinícolas”, pelo que passa a ser elegível o apoio a estruturas e instrumentos de marketing orientados para a venda direta a turistas nas regiões produtoras.
As organizações de produtores que gerem denominações de origem protegida e indicações geográficas protegidas passam também a poder aceder a apoios específicos de enoturismo, o que representa uma oportunidade direta para regiões portuguesas como o Douro, o Alentejo ou o Minho, cujos vinhos têm reconhecimento global.
Para Portugal, este pacote chega num momento em que o setor vitivinícola representa mais de 2,5% do PIB nacional e onde as exportações de vinho ultrapassaram os 965 milhões de euros em 2024, mas com o setor a mostrar grandes desafios no último ano, como espelhado pela perda de 50 mil hectares de vinhas na última década, segundo dados do Instituto da Vinha e do Vinho
Com a aprovação do Conselho concluída, o regulamento seguirá para publicação no Jornal Oficial da União Europeia, após o que entrará em vigor e começará a produzir efeitos concretos para os produtores.
Fonte: Eco